Mag Rodrigues
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Mag Rodrigues
Conto

Tens mãe, tia, e a avó também vai gostar de ti

Na minha cabeça, a Xana tinha acabado de arruinar, e sem retorno, a sua vidinha. Afinal, eu só tinha mais dois anos do que ela e a minha vontade de ter filhos era idêntica ao desejo de ser atropelada por um cilindro compactador.

Quando a minha irmã Xana caiu em desgraça e começou a inchar como se tivesse sido atacada por uma cirrose aguda e galopante, eu não queria acreditar que aquilo afinal não era uma doença, mas sim, segundo a porteira jeová do prédio onde vivíamos, um milagre da natureza — a Xana estava grávida. Primeiro fiquei chocada. Depois senti verdadeiro terror pela situação. E, no final, experienciei uma real compaixão por aquela irmã tão dada aos infortúnios desde a primeira queda no baloiço de ferro, aos oito anos, em que ficara sem um dos dentes definitivos da bancada da frente.

Na minha cabeça, a Xana tinha acabado de arruinar, e sem retorno, a sua vidinha. Afinal, eu só tinha mais dois anos do que ela e a minha vontade de ter filhos era idêntica ao desejo de ser atropelada por um cilindro compactador. O que mais me espantou foi mesmo ver a Xana aparentemente feliz. Durante a gravidez não a vi chorar mais do que as outras grávidas dos filmes, quando são tomadas de assalto pelo carrossel das hormonas, nem a vi queixar-se da sua condição de grávida adolescente. Tinha medo, claro. Dizia-o, a tentar um sorriso. Não da gravidez ou do parto, mas de imaginar a sua vida depois de ter a criança fora da barriga. Uma tarefa que teria de desempenhar sem o Carlos, pai da criança e colega de turma há vários anos, e sem a ajuda da nossa avó. O Carlos não passava de um pobretanas, com manias de rapper e a cara coberta de acne, era demasiado cobarde para assumir uma responsabilidade daquelas. Nunca pensou que o coito interrompido pudesse dar frutos de verdade, estava até convencido de que tinha sido enganado. Portanto, achava que perfilhar o bebé era bem mais do que aquilo que lhe competia. E quanto à nossa avó, que me educa a mim e à Xana desde pequeninas, desde que a nossa mãe foi levada por maus caminhos vá-se lá saber por quem, também não podia contar com apoio seguro.

A avó nem queria acreditar no desastre que teimava em repetir-se naquela casa. Primeiro consigo própria, depois com a filha e agora com a neta. “É a única mulher com cabeça nesta casa”, dizia a avó a chorar, referindo-se a mim. A nossa família tem, como já perceberam, uma extensa genealogia de mães adolescentes. A avó, logo no início da gravidez da Xana, gabava-se de que iria ter mão no destino: “Com esta não vai acontecer o mesmo. Não permito. Não há cá mais bocas para alimentar.” E queria por força levar a Xana a fazer um desmancho, aproveitando o argumento de que “aquilo agora é tudo limpinho, rapariga, desde que é legal não há cá facas nem nada”.

Mas a Xana, vá-se lá saber porquê, não quis tratar do futuro da criança com soluções irrevogáveis e higiénicas. A avó jurou que nunca iria ajudar no que quer fosse. Não estava para alimentar mais misérias. Eu nunca perguntei à minha irmã por que quis comprar aquela guerra e escolher o caminho mais difícil. Achava que se o fazia, lá teria as suas razões. Pensava muitas vezes o que teria eu feito à vida se fosse comigo.

Ao fim de uns meses de a ver assim tão grávida, comecei a habituar-me à ideia de que ia ser tia. Também só tinha 16 anos. Estava disposta a arranjar um trabalho após as aulas para ajudar a minha irmã e o bebé. Sabia que a avó acabaria por ceder, mal a casa se enchesse de atractivos do bisneto. Mas, para já, só me tinham a mim.