Crónica

As Marias pobres deste mundo

Maria sabe que se pode mudar. Ela já não consegue. Mas, quem sabe, se os seus netos terão força. Os netos de todo o mundo.

Foto
Adriano Miranda

Maria bateu à janela. Um toque tímido. Um toque envergonhado. Vestida de negro da cabeça aos pés, deixava adivinhar um rosto velho. Um rosto que não coincidia com a idade. Maria ainda era nova, mas a vida marcou-lhe o corpo. E continua a marcar. Maria pediu à vizinha umas batatinhas. Maria nunca tinha pedido nada. Maria tem agora o frigorífico vazio. Maria tem de pedir. Maria está envergonhada e a vizinha arrasada. A Maria. Um ser humano extraordinário com fome. Num saco de plástico a vizinha oferece o aconchego para o estômago de Maria. Maria retira do bolso uma pequena garrafa de plástico. Necessita de um fio de azeite para dar sabor às batatas. Maria olha para baixo. A vizinha pede-lhe que levante a cabeça. Maria tem os olhos húmidos. A vizinha também.

Um obrigado sentido sai do coração de Maria. Caminha pela rua vergada pela vergonha e pela vida. A vizinha fica ao portão a ver Maria. O que se poderá fazer para mudar isto? Que força é esta tão estranha que nos esmaga, nós, seres humanos, que nos ofende, que nos humilha? Nas horas felizes das dores mais desejadas, as do parto, nascemos todos para o mundo de igual forma. Choramos e sentimos pela primeira vez os pulmões a receberem ar. Ficamos ligados à vida. E logo ali começamos a esboçar o destino. Maria era uma bebé bonita. Olhos azuis. Brincos de ouro. Maria sonhou com a felicidade. Correu sempre atrás dela. Teimosa. Lutadora. Mas a pobreza foi mais forte. Nasceu pobre. Continua pobre.

A pobreza é como o ácido sulfúrico. Corrói e deixa marcas. Destrói. E Maria, que tão bem aprendeu a respirar, percebe agora que talvez tivesse sido melhor que os seus tenros pulmões rejeitassem o ar que ela pensava ser puro. Para todos. Igual para todos. Maria era inocente. Agora, com as rugas a mapearem-lhe o corpo, Maria sonha deitar-se pelo fresco da noite e já não ver o nascer do dia.

As batatas mergulhadas em água quente esperam pela fervura. A cozinha tem um ar desbotado. O amarelo das paredes está sujo. Uma pequena bancada tem uma jarra de flores de plástico. O pó quase não deixa adivinhar a cor. Uma torradeira. Pratos. Sacos com medicamentos. Cartas da EDP. Um porta-moedas. Facas. Um Santo António. Um pacote de manteiga. Na mesa para quatro pessoas está um napperon antigo. Solitário. Na parede, bem junto ao tecto, uma moldura de Maria com o marido. Sorridentes. Pareciam felizes. O fotógrafo quase de certeza que lhe exigiu um sorriso. Forçado, mas é sempre um sorriso. Maria não tinha rugas. A pele era lisa e brilhante. Ainda era o tempo que achava que era possível. Era. Mas não foi. Maria já nem olha para a fotografia. Está no alto. Esquecida. A água das batatas já ferve.

Pela janela da cozinha entra o sol. Maria rega as batatas com um fino fio de azeite. Estão boas as batatas. Maria parece feliz. Sabem-lhe bem. Sempre admirou a sua vizinha. Sabe que é uma pessoa de coração cheio. Só bateria à sua janela. Nunca conseguiria bater à janela de mais nenhum vizinho. Uns ignorariam e outros olhariam de lado. Aquela vizinha não. Olha nos olhos. De igual para igual. É solidária. Maria dá graças a Deus e à sua vizinha por ter aquelas batatas no prato. Sabe que naquele momento haverá muitos a comer caviar e lagosta. E muitos, muitos mais a morrer de fome. Maria ainda tem as batatas e o fio de azeite. Maria nunca comerá lagosta, mas um dia poderá morrer de fome. Está cansada. Esgotada. Aprendeu a ouvir que o mundo sempre foi assim. Ricos e pobres. A riqueza tornou-se um desejo e a miséria uma banalidade. Mas Maria também sabe que se pode mudar. Ela já não consegue. Mas, quem sabe, se os seus netos terão força. Os netos de todo o mundo.

Na cozinha estão três cadeiras vazias. Maria vive sozinha. O marido morreu. As filhas emigraram. Faz contas aos dias que faltam para receber a magra reforma. Irá comprar asas de frango e fazer um arroz de sangue. Depois irá bater à janela da vizinha.

Sentadas as duas, riem-se das histórias passadas na rua do bairro. O arroz de sangue está uma delícia. Maria está feliz. A vizinha levou leite-creme. O café está ao lume.

Dona Emília, diga-me uma coisa, o mundo tem de mudar, não tem? Acabar com a pobreza é possível, não é? Claro que é possível, Maria, serão os netos deste mundo a mudar o mundo.