Show Centeno reentra em cena para chamar todos os nomes a Rio... e dar pancadinhas à esquerda

Promotor de “aldrabices”, “com poucos escrúpulos”, “ilusionista”, com propostas “da direita radical” e cenário do “professor Pardal” que são “uma invenção sem nexo nenhum”.

Fotogaleria
Mário Centeno esta quinta-feira em Setúbal Francisco Romão Pereira
Fotogaleria
Mário Centeno esta quinta-feira em Setúbal Francisco Romão Pereira
Fotogaleria
Mário Centeno esta quinta-feira em Setúbal Francisco Romão Pereira
Fotogaleria
Mário Centeno esta quinta-feira em Setúbal Francisco Romão Pereira

“Onde é que está a câmara? Olá, dr. Rui Rio, boa noite”. E começou Mário Centeno, a superstar que nesta noite se tornou um mix de poeta inspirado por Bocage, que o via do alto da praça, e de comediante, recuperando cantigas de escárnio e maldizer dos tempos modernos. O alvo? Rui Rio que foi colado à imagem de um “comerciante" que faz “aldrabices”, sem “escrúpulos”. Foi um ataque ao líder do PSD que durou 19 minutos. Numa noite em que o PS acabou com a música porque não queria festa, Centeno passou por cima e fez um espectáculo da stand up comedy. 

“Sei que está sempre atento ao que digo, estou também a falar consigo: a sua magia não é nada de especial, funciona como a daqueles comerciantes, felizmente poucos, com poucos escrúpulos, que aumentam o preço antes da época do saldo. A isso os portugueses chamam aldrabice”, lançou Centeno para gáudio da plateia.

O homem que foi chamado por António Costa no início da semana para virar os temas de campanha aprendeu a gostar do palco e encheu-o de ataques ao PSD e CDS, mas principalmente a Rio, por meio de rimas e piadas e de toques à esquerda. Construindo o discurso em torno de quatro perguntas - “quem protege a Segurança Social”; “quem protege as poupanças”; “quem protege os aumentos de rendimentos”; e “quem nos protege da instabilidade” - em que a resposta certa era sempre o PS, a resposta errada era sempre “PSD e CDS”, com duas delas a incluírem a esquerda, mas já lá vamos. 

Primeiro, a paródia com alguns insultos pelo meio, a Rui Rio. Falando directamente para o líder do PSD, e comparando-o a um vendedor de carros, acusou-o de ter um “programa escondido [que] é na verdade um aumento de impostos para os pobres”. E de ter um cenário macroeconómico que é uma "pura ilusão”, porque “deu uma demão de PIB ao velho modelo ‘choque fiscal 2.0’ de 2002 que tinha lá por casa, insuflou-o de receita totalmente inventada e depois diz que a vai baixar. Mas vai baixar exactamente o quê, dr. Rio? O que todos já percebemos, vai baixar a receita de impostos que inventou. Elimina o que não existe, uma pura ilusão”, acusou.

Mas mais do que isso, insistiu Centeno, o programa do PSD tem “nas letras muito pequeninas do prospecto de venda”, como se de um carro se tratasse, “um verdadeiro aumento de IRS para 2,5 milhões de família para as famílias mais pobres. 30 euros por ano e mais IRC para 300 mil pequenas e médias empresas”. Na prática é como se fosse “o mesmo velho carro, agora sem motor, com uma pintura novinha em folha”.

Não era suposto haver música, mas os “jotas” não resistiram, depois de uma tarde calados sem palavras de ordem a gritar pelo novo expert do PS em “malhar” nos adversários: “Centeno só há um o nosso e mais nenhum”.

As palavras pareceram atiçar ainda mais a vontade de Centeno de destruir as propostas económicas de Rui Rio, na sua metáfora de mau comerciante: “Rui Rio tentou um truque baratucho que normalmente acaba em liquidação total”. 

Mas não foi só a Rio que atirou, foi também a Joaquim Sarmento, o porta-voz do PSD para a área económica, que fez o programa do partido na parte económico-financeira. Chamou-se o “autor da campanha publicitária, que afinal gosta ainda menos de ser deputado que o líder do PSD” e que começou o “cenário do Conselho de Finanças Públicas" para se basear, para terminar “com o cenário do professor Pardal: uma invenção sem nexo nenhum”.

PSD “não fala para o centro”, “ouve o eco"

Mário Centeno não é o ministro mais amado pela esquerda, mas nos últimos dias tem sido o alvo preferido do PSD, à medida dos seus ataques para o outro lado da barricada. E voltou a fazê-lo com uma violência que ainda não se tinha visto nesta campanha. Para Centeno, “ninguém tem o direito de pôr em causa a estabilidade da economia em nome de um projecto de um partido dividido como é hoje o PSD, sem rumo e sem memória”. Um partido que hoje "não fala para o centro, fala para dentro, e como está vazio aquilo que ouve é um eco. É por isso que diz todos os dias a mesma coisa”.

Nestas eleições, Centeno é a arma do PS para captar o eleitorado de centro, e o ministro das Finanças, nesta noite na pele de candidato por Lisboa, sabe disso, por isso reforçou a ideia que o PSD “não fala para o centro, fala para os radicais que embarcam em histórias e fábulas de promessas vãs. O cenário macroeconómico é mesmo radical e não encontra sustentação no sucesso de hoje da economia”.

As pancadas na esquerda

O show de Centeno não foi no entanto de alvo único. Mesmo que de passagem ou passando despercebido no meio de um arrazoado de críticas ao PSD, a estrela do PS das Finanças não esqueceu a esquerda. Por duas vezes, sobretudo o Bloco de Esquerda.

Para Centeno, “não é solução entregar o país a quem quer pôr em causa a sua credibilidade propondo saídas do euro e o não pagamento da dívida pública” para depois, avisou, “continuarmos a pagar ainda mais”. “Mas é isto que defendem o BE e PCP”, disse.

Não foi a primeira vez que o economista atirou às contas do Bloco de Esquerda, mas nesta noite fez referência directa ao slogan do partido de Catarina Martins “Faz acontecer”. Disse Centeno que “quem não protege a estabilidade de Portugal não são, seguramente aqueles que querem ir partir aos desconhecido, jurando que têm contas certas, mas ao mesmo tempo acrescentando 30 mil milhões de euros à despesa pública”, como diz o PS que está no programa dos bloquistas com a nacionalização de empresas como a Galp ou a EDP. Como constatação no seu discurso, Centeno concluiu: "Quem isto promete não faz acontecer isto hoje, mas faz com certeza faz desaparecer amanhã".

Os socialistas em campanha tinham sempre algumas vozes mais audíveis, que normalmente se encarregavam da tarefa que muitas vezes não cabia ao líder de bater à esquerda e à direita. Esta noite em Setúbal fez questão de frisar que são os dois lados que estão errados: “À esquerda e à direita todos se deliciam num banquete de ofertas pagas com os resultados de políticas de contas certas do Governo de António Costa.

Não se sabe quais as ambições de Mário Centeno no próximo Governo, mas já se sabe que com estes discursos tem entrada directa naquele leque de socialistas que animam as campanhas a bater na esquerda e na direita como Carlos César, Augusto Santos Silva ou Jorge Coelho. No domingo saberá se a receita resulta.

Sugerir correcção