Pedro Fazeres
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Pedro Fazeres

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Aos abanadores de bandeiras desta campanha eleitoral

Dedico este texto aos abanadores de bandeiras que, nesta última semana, se vão esforçar para participar na campanha eleitoral, independentemente do movimento ou partido. Vocês são importantes, apesar dos eleitores não vos darem qualquer importância.

Já fui um abanador de bandeiras. Abanei muitas, apesar de serem sempre as mesmas. Mudavam os tons consoante o momento, mas o partido era sempre o mesmo porque o via como extensão de valores e ideias mais abrangentes. Hoje já não abano da mesma maneira.

Filiei-me na jota do meu partido depois de ter concluído a minha licenciatura. Pareceu-me normal, porque queria aprender, ter actividade e dar algum contributo político. Apesar disso, sempre me pareceu necessário ter alguns conhecimentos de base, por isso só entrei tardiamente, e sem conhecer ninguém. Entrei por baixo como é suposto, comecei por participar na reconstrução da sede local do partido com trabalho braçal. Foi trabalho duro, embora não fosse propriamente trabalho político. Foi estranho, mas útil. Serviu para aprender muitas coisas, embora tivessem depois faltado muitas outras.

Seguiram-se anos a abanar bandeiras, distribuir materiais de campanha, colocar cartazes, andar com carrinhas de campanha, fazer o roteiro das festas populares e mercados, tal como uma infindável série de visitas aos mais diversos locais e, claro, os comícios. Provavelmente, por falta de melhor e porque me voluntariava para isso, também me foi sendo dado outro tipo de trabalhos, tais como definição de propostas, programas eleitorais, construção de eventos, criação de conteúdos e gestão de redes sociais. Fiz isso tanto sozinho como acompanhado, e até cheguei a mobilizar algumas pessoas. Consegui ter um cargo político de nomeação que me dava um ordenado acima da média. Fui fazendo tudo isso embora me desagradassem muitas dessas coisas. A vida real é mesmo assim, para fazer as coisas que queremos por vezes temos de fazer outras que desgostamos. Tudo normal desde que se consiga manter coerência ética. Hoje abano muito menos bandeiras, sou muito mais crítico e participo apenas naquilo que me parece valer a pena e gerar valor acrescido. Tudo normal, coisas da idade e da experiência.

Por isso dedico este texto aos abanadores de bandeiras que, nesta última semana, se vão esforçar para participar na campanha eleitoral, independentemente do movimento ou partido. Vocês são importantes, apesar dos eleitores não vos darem qualquer importância. Os candidatos precisam de vocês mesmo que não saibam porquê, apesar dessas bandeiras serem meros adornos. Sei que querem fazer mais do que isso. Não querem ser meros joguetes e bonecos de enfeitar comícios. Querem que as propostas dos vossos partidos sejam vossas também, caso contrário, inevitavelmente, irão tender para a saturação e decepção. Se abanam essas bandeiras por interesse pessoal, até podem vir a ser dos poucos que vão ecfetivamente aceder aos benefícios do poder, mas o mundo está a mudar e os métodos do passado estão a deixar de funcionar.

Meus caros abanadores de bandeiras: não sabemos, sequer, porque não existe forma de comprovar, se abanar bandeiras tem qualquer efeito positivo nos resultados eleitorais, apesar dos candidatos gostarem disso. Não conseguimos comprovar que os brindes eleitorais, canetas, t-shirts, baralhos de cartas, porta-chaves e afins que se distribuem pelos mercados influenciam realmente os eleitores. Sabemos somente que geram impactos ambientais e que isso é cada vez menos aceitável. Tudo indica que circular em carrinhas com som de campanha irrita mais os transeuntes, já para não falar novamente das emissões poluentes. Discursos trauliteiros e demagógicos também parecem servir cada vez mais para prejudicar quem os faz. Já aos comícios vai somente quem já irá votar em quem os faz.

Mas sabemos que a política se faz com pessoas e que o melhor delas são as ideias e propostas que podem fazer. O foco não são as bandeiras, são vocês e todos nós. Podem continuar de bandeiras na mão, mas se tiverem de deixar cair alguma coisa para lutar que sejam essas bandeiras e não os motivos saudáveis e bem-intencionados para as abanar.