Mag Rodrigues
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Mag Rodrigues
Conto

Jesus, um homem feminista

Jesus amava as mulheres e os homens, as crianças e os animais, e mesmo quem Lhe desejava mal. Quando cresci tive desde logo a noção de que não seria tão amável (nem tão bonito como nas pinturas) quanto Ele.

Quando digo que Jesus era feminista, pensam que estou a gozar. Sei bem que é um anacronismo dizê-lo, mas a afirmação está correcta. É claro que ainda não existia o conceito de feminismo. Todavia, se olharmos para as Suas atitudes perante as mulheres, quando elas tomavam iniciativa ou quando se dirigia a estas, podemos afirmar — Jesus era feminista. Simplesmente porque atribuía à mulher a mesma dignidade do homem. “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois são todos iguais em dignidade” (São Paulo na Carta aos Gálatas). Quando eu era miúdo, queria ser como Jesus. Achava-o tão fixe; ainda acho. A começar pelo aspecto d`Ele nas imagens da igreja — o cabelo comprido, as saias, o rosto sereno, uns olhos azuis profundos e bondosos. Hoje sei que aquelas imagens são provavelmente ficção, embora continue a idolatrá-lo como uma criança, com o fascínio típico que se nutre por um herói de banda desenhada. Espantava-me, sobretudo, e ainda me espanta, que a sua missão na Terra fosse evangelizar o amor, algo tão inusitado para aquele tempo. Ensinar a amar o próximo; ainda hoje não conseguimos aprender a fazer isso e há cada vez menos mestres desta prática. 

Jesus amava as mulheres e os homens, as crianças e os animais, e mesmo quem Lhe desejava mal. Quando cresci tive desde logo a noção de que não seria tão amável (nem tão bonito como nas pinturas) quanto Ele. Por exemplo, no outro dia, ao jantar, um casal de amigos recentes da minha mulher gozou comigo quando lhes disse que Jesus era feminista. Riram-se. Senti logo vontade de me ir embora. Ou de lhes puxar a cadeira caríssima onde tinham sentado os rabos flácidos e vê-los ir, literalmente, ao tapete. A ignorância tira-me do sério. Continuaram a rir, mesmo depois de eu lhes contar o episódio da Bíblia em que Jesus visita uma família de amigos, e uma das filhas, Marta, censura a sua irmã Maria por esta se ter sentado a escutar Jesus, em vez de a ajudar na lida de casa. Todavia, expliquei, Jesus não só aceita a iniciativa de Maria como a louva por ter escolhido a atitude da verdadeira sabedoria.

— Portanto, a culpa das mulheres terem saído da cozinha é de Jesus? — disse a rir o novo amigo da minha mulher.
— Nenhum homem é feminista, muito menos Jesus — acrescentou a mulherzinha dele, com a arrogância que só aos ignorantes cabe.

Enchi a boca com uma enorme garfada de polvo. A minha mulher levantou-se para ir à casa de banho e convidou a amiga para a acompanhar, tirando-a assim do iminente campo de batalha. Sabe bem o quão sensível sou com este assunto. Logo que fiquei a sós com o novo amigo da minha mulher, não contive a provocação.

— Segundo a sua mulher, os homens não podem ser feministas. Também concorda?
— Claro. Era o que mais faltava. Essas feministas querem acabar com a nossa raça.
— Nunca ouvi nada tão estúpido.
— Desculpe? — vi-o ruborizar de espanto.
— Vocês já eram estúpidos antes de se conhecerem ou ficaram idiotas por contágio? — disse, finalmente aliviado por ter dito o que pensava desde o início daquele jantar.

O homem levantou-se, afastando-se da mesa. Suponho que para pedir a conta. As mulheres voltaram passados uns momentos. Vi na cara da minha mulher o embaraço de quem sabe dos meus maus modos e, na mulher do outro, perplexidade ao observar o marido a tratar da conta. Ainda mal tínhamos terminado o primeiro prato. Nem se despediram de mim. Deram um abraço frugal à minha mulher e saíram do restaurante.

A sério que gostava de sentir esse amor incondicional pelo próximo, por mais antifeminista que seja o próximo. Mas a verdade é que sou incapaz de ser amigo de pessoas que não entendam o que é o feminismo. E a culpa deste meu paradoxo comportamental é de Jesus.