Ana Rodrigues, à esquerda, estuda Biologia e Geologia e paga 140 euros por um quarto num apartamento T2.
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Ana Rodrigues, à esquerda, estuda Biologia e Geologia e paga 140 euros por um quarto num apartamento T2. Adriano Miranda

Há mais alunos na Universidade do Minho, mas menos quartos para os alojar. Preços são “exagerados”

Entre Guimarães e Braga, os preços dos quartos no sector privado aumentaram “exponencialmente” no ano lectivo que agora arranca, dizem os alunos. As três residências da Universidade do Minho estão “esgotadas” e as oito camas previstas pelo Plano Nacional de Alojamento para o Ensino Superior são insuficientes para um universo estudantil com quase 14 mil alunos deslocados.

“O meu quarto tem minibar e tudo, é fixe”, diz Ricardo Almeida. “Minibar? Ah, sim, o frigorífico. Tem uma gaveta congeladora. Ponho lá a sopa e congela numa hora!”, responde-lhe Afonso Pereira, surpreendido pelas funcionalidades do electrodoméstico. O primeiro tem 18 anos e é da Trofa; o segundo, quase a chegar à maioridade, vem de Viana do Castelo. Ambos ingressaram em Engenharia Electrónica na Universidade do Minho (UM). Como o curso funciona no campus de Azurém, vivem em Guimarães, mas não numa habitação arrendada: preferiram as residências universitárias da cidade, cuja renda para não-bolseiros é de perto de 94 euros (contas de água e luz inclusas, para além da Internet). Para os caloiros, as aulas começaram há dias — e muitos, tal como os dois colegas de curso, dizem não ter “noção” do que é “caro ou barato” em Guimarães. Ainda assim, tanto Ricardo como Afonso asseguram que, “no máximo”, pagariam “230 euros por um quarto”.

André Martins, no segundo ano de Engenharia Informática, está numa situação mais complicada. O estudante do Porto, 21 anos, vive em Braga e teve de mudar de casa. “No primeiro ano pagava 125 euros, mais as contas. Este ano ainda não arranjei casa”, aponta. Tem um quarto em vista que vai, certamente, dobrar-lhe — “com sorte” — o encargo com a renda. “Estou a contar que seja mais para o lado dos 300 euros do que para os 200.” Os três casos reflectem uma fase de transição na média do custo de arrendamento universitário nas duas cidades minhotas. “O valor médio de uma cama no sector privado está nos 250 euros e isso já representa um aumento de 100 euros num ano”, refere Nuno Reis, presidente da Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM). “Mas, na realidade, há quartos a 300 e 400 euros. Só que ainda há estudantes com contratos de anos anteriores ou que ficaram na mesma casa, mantendo o valor mais baixo, por assim dizer”, acrescenta.

Os elevados preços das camas no distrito, aliados ao aumento do preço das senhas de refeição na UM, fez com que fosse declarado “estado de emergência” nos Serviços de Acção Social da Universidade do Minho (SASUM). Depois, logo no primeiro dia de matrículas no ensino superior, a associação académica lançou o movimento “Uma Pedra Por Mim”, para apelar ao aumento da “oferta pública de alojamento”. Foi pedido aos estudantes que depositassem, simbolicamente, uma pedra em alguns contentores dispersos pelos dois campi (Azurém e Gualtar). Nos recipientes, os alunos encontram um código QR para uma petição online que já ultrapassou as mil assinaturas. 

Há sempre “quem queira”

Este ano, na UM, foram colocados, na primeira fase, 2820 estudantes. É um “recorde”, representando um aumento de 40 colocados face aos dados do ano lectivo transacto, segundo comunicado do Gabinete de Comunicação daquela universidade. Somando os números disponíveis no PÚBLICO, são 2106 os novos estudantes colocados em Braga e 714 os de Guimarães. No universo estudantil da UM, “13 a 14 mil estudantes” são deslocados. Há, actualmente, 1300 camas na rede pública dos SASUM, “totalmente ocupadas”. Há três residências para os estudantes da UM: duas em Braga (Lloyd e Santa Tecla) e outra em Azurém.

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Residência universitária em Braga, perto do “campus” de Gualtar Adriano Miranda

À falta de oferta no sector privado, também motivada “pelo grande número de emigrantes que têm chegado a Braga”, indica Nuno Reis, juntam-se as poucas camas previstas pelo Plano Nacional de Alojamento para o Ensino Superior (PNAES) para o distrito. As oito camas disponíveis para este ano lectivo localizam-se todas em Guimarães, na Pousada da Juventude. O protocolo para efectivar o número prometido “será assinado brevemente”, assegura a assessoria da MoviJovem, organismo que gere a rede de alojamento das Pousadas da Juventude. Quanto ao preço, Nuno Coelho Chaves, presidente da direcção, afirma que “será sempre inferior a 174 euros”, valor do complemento para o alojamento.

Ana Rodrigues, 22 anos, estudante de Biologia e Geologia em Braga, paga 140 euros por um quarto num apartamento T2. “É mais acessível, mas sei de pessoas que pagam 200 euros por quartos sem janela.” Para a jovem de Viseu, os preços “subiram exponencialmente” neste ano lectivo. Joana Pinto, 18 anos, é caloira no mesmo curso e vem de Terras de Bouro. Ainda não tem quarto e está, temporariamente, “em casa de uma amiga”. “Os preços são mesmo exagerados. Só tenho visto a 300 euros. E T0 só a partir de 500 euros”, conta. Há quem acredite ainda que “o facto de muita gente não conhecer a cidade” e “o desespero em encontrar quarto” façam com que se chegue a estes preços, indica Tiago Ferreira, 21 anos, de Lousada, a cursar Filosofia.

Em Guimarães, há casas inteiras cujo preço por quarto vai dos 250 aos 320 euros: um total de 1140 euros de renda numa habitação T4 que fica a 17 minutos a pé do campus de Azurém. Na mesma cidade, outro quarto por 380 euros. Em Braga, um T3 com quartos a custar 300 euros: “Normalmente, cada quarto é para duas pessoas”, diz-nos o proprietário, do outro lado da linha. “Se quiser ficar sozinho no quarto, é consigo, mas paga os 300 euros na mesma”, acrescenta. Quando questionado se o preço não poderia ser baixado, dado o valor elevado, respondeu: “Há quem queira.”