A dança que existe entre os planos, as condições e a burocracia

David Marques leva o Mistério da Cultura esta sexta-feira ao Festival Materiais Diversos. Uma peça que é a imagem da sua própria construção.

Foto
ÁGATA XAVIER

David Marques e os seis intérpretes de Mistério da Cultura precisavam de falar. Sentiam necessidade de cuspir pensamentos acerca das suas profissões de bailarinos e criadores, acerca da relação entre arte e poder, acerca da presença do público nas suas vidas, acerca de tudo aquilo que, não sendo próprio do domínio criativo, lhes invade os dias e suga muito do seu tempo e da sua energia. Por isso, a ideia inicial do coreógrafo para Mistério da Cultura passava não por trabalhar o movimento, mas por instalar um dispositivo de rádio ao vivo. E foi com esse propósito em mente que, numa primeira fase, trabalhou com Madeleine Fournier, Johann Nöhles, Nuno Pinheiro, Marco da Silva Ferreira, Francisco Rolo e Teresa Silva, entrevistando separadamente cada um dos bailarinos.

Esse rastilho inicial emerge num dos blocos de Mistério da Cultura, quando os seis se livram das roupas e rodam um microfone entre si, enquanto, sentados, revelam reflexões, angústias e inquietações, desejos e ambições. No seu conjunto, formado por vários blocos, a peça põe a nu o processo criativo, mas também as questões que acompanham o percurso de uma ideia até à sua chegada ao palco – dos ensaios e das várias tentativas de levantar material, aos complexos concursos de apoios às artes. Daí que a sensação seja a de que David Marques elevou a obra final as várias experiências para criar uma obra. Aquilo a que assistiremos em antestreia esta sexta-feira na Fábrica de Cultura, em Minde, abrindo o Festival Materiais Diversos, e depois de 1 a 3 de Novembro no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, é, dir-se-ia, o material “em construção” que nunca chega verdadeiramente ao palco, porque “apenas” serve de combustível para a criação de um novo espectáculo.

“Eu não sabia fazer esta peça”, confessa David Marques ao PÚBLICO. “Fui à procura de tentar fazer e percebi que essa procura, quer em termos artísticos quer em termos dos meios necessários, é, de alguma maneira, a peça em si.” É também a isso que alude o título Mistério da Cultura, vincando desde o segundo inaugural até que ponto a criação de um objecto artístico escapa ao controlo e à racionalidade, assumindo-se como “uma incógnita gigante sobre o que fazer, como fazer e para quem fazer”. Mas o título não esconde, como é evidente, uma alusão ao ministério que tutela as artes e os apoios à criação – dos quais depende grande parte das propostas que passam pelos palcos portugueses.

PÚBLICO -
Foto
ágata xavier

É em referência a essa dimensão burocrática da criação que os bailarinos se cobrem, às tantas, com lençóis em que vemos estampados os formulários de candidatura aos apoios da Direcção-Geral das Artes, e em que se descobrem espaços destinados a “receitas próprias” ou avisos como “até 500 caracteres incluindo espaços”. Unidos debaixo desse céu baixo de lençóis que lhes esconde os movimentos, os seis assumem poses ameaçadoras e tomam a forma de um monstro. Um monstro burocrático, entenda-se, que exige descrições minuciosas das intenções artísticas dos candidatos, como se ainda no papel, às vezes a anos de distância, tivessem de antecipar cada esquina que a obra final virá a ter. “Esse trabalho de imaginação e projecção [da fase de candidatura]”, acredita o coreógrafo, “é, de alguma maneira, o oposto do trabalho de imaginação que se quer levar a cabo durante um processo de criação”. E David Marques vai mesmo mais longe: “Há aqui uma relação com a burocracia que, de facto, retira-nos liberdade e impele-nos até a mentir.”

Na ressaca de Ressaca

Esta temática – a distância entre as intenções artísticas e a sua concretização – começou a assombrar David Marques na fase final do processo de criação de Ressaca, peça que estreou na Culturgest em 2017. Tendo concorrido a apoios da Direcção-Geral das Artes e da Fundação Gulbenkian, acabou por trabalhar apenas com a verba de co-produção atribuída pela Culturgest. “Fiz a peça com um orçamento reduzido e tive de convocar uma economia paralela, de afectos, para conseguir concretizá-la, pedindo bastante compreensão e amizade às pessoas que colaboraram comigo porque tinha menos meios do que aqueles que previra de início”, conta. A nomeação de Ressaca na categoria de Melhor Coreografia dos Prémios SPA 2018 levou-o a pensar que era “quase perverso que as condições em que a peça foi criada não fossem muito visíveis, não transparecendo nela as dificuldades da sua construção”.

Decidiu, portanto, que desta vez traria todo o processo para o palco. E é esse processo que será mostrado na abertura da décima edição do Materiais Diversos, a decorrer até 5 de Outubro entre Minde, Alcanena e Cartaxo. O arranque do festival inclui também a performance As Far as My Fingertips Take Me, de Tania El Khoury (Museu de Aguarela Roque Gameiro, Minde, de sexta-feira a domingo), a coreografia Partilhas Exchanges, de Filipa Francisco (Cine-Teatro Rogério Venâncio, Minde, sexta e sábado), o espectáculo de teatro A Menor Língua do Mundo, de Alex Casal e Paula Diogo (Cine-Teatro São Pedro, Alcanena, sexta e sábado), a performance Jogo de Lençóis, de Lígia Soares (Casa da Memória, Minde, sábado e domingo) e o espectáculo-percurso Viagem a Portugal, do Teatro do Vestido (Auditório do Sindicato dos Curtumes, Alcanena, sábado e domingo).