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Vida e morte

É importante retirar da ideia que falar sobre suicídio induz suicídio ou que quem fala em suicidar-se só quer chamar a atenção. Falar sobre o sofrimento não aumenta o sofrimento e beber uma cerveja ou um copo de vinho não anestesia a dor para sempre — antes pelo contrário.

Diria José Gomes Ferreira que “viver para sempre também cansa” fazendo alusão ao cansaço de alguns dias, ao sofrimento de outros e à ambivalência que nos acompanha em todos os momentos. “Ah, se nos pudéssemos suicidar apenas por seis meses.” Não fosse a impossibilidade de voltar à vida, talvez essa “suspensão” fosse útil para reestruturar os níveis de prazer e vitalidade. Felizmente há formas mais adaptativas para nos restabelecermos — quer seja fazer desporto, ir a concertos, ler livros, comungar com amizades, pintar escrever, usufruir da petite mort, como dizem os franceses, vivendo uma sexualidade satisfatória. Em suma, cuidar da saúde física e mental.

A existência humana pressupõe um constante bailado entre a força para viver e o impulso para a autodestruição, existindo situações em que os pratos da balança não pendem para a autopreservação. Pode acontecer que o sofrimento seja tão intenso que não se veja uma solução, ou que a frustração seja tão marcada que a tensão destrutiva seja dominante, pode acontecer que se tenham esgotado as forças face aos insucessos ou múltiplos obstáculos, ou que não se encontre um sentido ou uma ordem naquilo que se vive. Pode ser que, subitamente, ou ao longo do tempo, o futuro não se consiga perspectivar ou que o presente deixe de servir. A desesperança, o desespero e o desamparo podem tomar o comando do ser. Estes exemplos, aos quais se podem juntar muitos outros, servem para ilustrar situações em que o risco de suicídio é elevado.

Não falar não é uma solução, por isso todos devem ter conhecimento que é possível abrandar a dor, dar um novo rumo ao caminho, repensar as probabilidades e fazer com que a morte e a dor não sejam a única solução. Repito, sim, é possível!

O suicídio deve ser entendido no tempo, espaço e cultura em que é avaliado, uma vez que o seu entendimento tem variado ao longo de gerações, filosofias, culturas e individualidades. A inevitabilidade da morte nem sempre o é, isto porque somos humanos e, como tal, o que sentimos ou pensamos está em constante mudança. Por isso, é tão importante que as ideias sobre a morte e sobre o morrer sejam atendidas atempadamente. Hoje entende-se o suicídio num modelo que pondera a predisposição (genética, hereditária, neurobiológica e neurofisiológica) em constante interacção com o meio — que pode ser protector ou promotor/indutor de mal-estar. Hoje pensamos no suicídio como uma causa de morte evitável.

Pensem nas pessoas com que já se cruzaram e, especialmente, se não existiu algum momento em que sentiram alguém muito desanimado, triste, irritável, desesperançado, que fala na morte ou que se mostra desesperado, que se isola progressivamente ou que tem uma mudança súbita no seu comportamento. Ou alguém que tem o diagnóstico de uma doença crónica ou que tem uma doença avançada, que vive em constante dor, que vive sozinho. Ou aquele casal de idosos, que passava todos os dias por nós e que agora já não vem em par. Quantas vezes se demoraram numa conversa, nestas situações? Quantas vezes sentiram medo de não saber o que dizer ou falar? É natural que tal aconteça. No entanto, com essa disponibilidade é possível fazer a diferença em alguém que pondera o suicídio.

É importante retirar da ideia que falar sobre suicídio induz suicídio ou que quem fala em suicidar-se só quer chamar a atenção. Falar sobre o sofrimento não aumenta o sofrimento e beber uma cerveja ou um copo de vinho não anestesia a dor para sempre — antes pelo contrário. Oferecer ajuda, permanecer, escutar e/ou encaminhar a um serviço de saúde/urgência podem fazer toda a diferença. No entanto, estar disponível implica tempo, implica deixarmo-nosusar um bocadinho. Seria bom que não tivéssemos medo do sofrimento dos outros e, para isso, é importante que continuemos a querer viver incluídos numa sociedade onde não sejamos escravos da produção, onde queiramos pertencer.

As instituições que integramos são pouco abertas à noção que precisamos tempo. Trabalha-se cada vez mais e com piores condições, o que implica que se tenha menos satisfação no que se faz e, consequentemente, menos saúde mental. Socialmente, passamos uma época pautada pela crise, pelas constantes ameaças de falta de dinheiro, pelas migrações forçadas, pelas ameaças de desemprego. Uma época que nos domina pelo medo e onde a esperança desiste. Nestes climas, o mal-estar social acentua-se e o risco de suicídio aumenta. E é neste mesmo clima que se tem feito exactamente o oposto do que se deveria fazer: desinveste-se no sistema de saúde, nomeadamente e sobretudo na saúde mental. Desinveste-se na cultura, na educação, em prol de um capital que as pessoas não vêem entrar nas suas casas. Assim não há tempo para que exista um envolvimento social, não há tempo para o prazer e para a preguiça, nem para procurar ou definir um lugar seguro onde se possa recorrer.

Não há que ter vergonha em pensar na morte, nem em comunicar esse pensamento. É uma possibilidade inerente ao viver. É valioso pedir-se ajuda, deixar-se ser cuidado, saber cuidar, incluindo cuidar das pessoas que perderam alguém vítima de suicídio. É fundamental que haja tempo, desde a infância até à morte. No quotidiano da vida. É urgente falar de saúde mental, de psiquiatria, é urgente falar de suicídio. É urgente falar de estruturas sociais, de ordenados dignos, de valorização do tempo pessoal, de cuidados de saúde primários, de cuidados paliativos, de medicina integrativa e humanizada — que requer tempo!

Setembro é um mês dedicado à prevenção do suicídio. E essa mesma prevenção relaciona-se com tudo isto. Prevenir estas mortes está nas mãos de todos e pressupõe acção empática — de compreensão, sintonização emocional e acção. Mas leva tempo e baseia-se na esperança de que os representantes parlamentares saiam da frieza das políticas de gabinete. A produtividade, sem consideração pelo bem-estar generalizado, não pode levar a sociedade para lugares com sentido, que nos afastem da angústia inerente ao processo de existir.

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