Reportagem

Era bom que trocássemos umas ideias sobre Marvila

Um antigo palácio devoluto pode ser o ponto de partida para a regeneração de uma zona esquecida de Lisboa. Dois anos e muita burocracia camarária depois, há uma folha quase em branco para desenhar.

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Miguel Manso
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Passa o Alfa Pendular, rumo a Santa Apolónia, e é como se a existência em Marvila Velha se suspendesse, esmagada pelo barulho ensurdecedor, o estremecimento de tudo. Os pombos esvoaçam amedrontados, os gatos escondem-se debaixo dos carros. Mas ainda não acabou. Passa o Suburbano, rumo à Azambuja, o tremor repete-se.

Emparedada pelas linhas ferroviárias do Norte e de cintura, esta é a parte de Marvila onde Marvila nasceu e que há muito está afastada dos holofotes, entretanto virados para a zona mais ribeirinha da freguesia. Neste pequeno enclave, que segue o sinuoso traçado da Rua de Marvila até ela se alargar, já rumo ao Beato, ainda são muitas as casas velhas e abandonadas, a população é maioritariamente idosa, o espaço público parece esquecido.

Há aqui também dois antigos palácios, convertidos em múltiplas habitações durante o século XX para albergar as vagas da migração rural. Num deles, que pertenceu aos Marialva, ainda mora gente. O outro, o dos Marqueses de Abrantes, está praticamente vazio. É para ele que existe agora um esboço de projecto com vista a recuperar o edifício e dar-lhe uso. Qual? Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto.

“O nosso primeiro projecto era para perceber o que se passava aqui na rua”, explica Ana Catarino, do Ateliermob. Depois de vários anos a trabalhar no bairro PRODAC, não muito longe, este gabinete de arquitectura com tradição em processos comunitários virou-se para Marvila Velha, onde um sentimento de abandono tomara conta dos (cada vez menos) moradores. “Quando começámos a vir para aqui havia um descrédito muito grande da câmara e da junta de freguesia”, refere Ana, recordando como os ombros se encolhiam e as caras se viravam à mínima menção daquelas entidades.

Havia boas razões para isso. Uma delas ali estava: um casarão cor-de-rosa, velho palácio quase a cair, propriedade municipal sem destino aparente. “Os moradores começaram a chamar-nos a atenção para este espaço, que tem uma série de ligações com a zona”, explica ainda Ana Catarino, agora secundada por Paula Miranda, do mesmo atelier, assumindo que havia um propósito de fazer algo “anti-gentrificação”.

Receberam um primeiro financiamento BIP/ZIP, que a câmara de Lisboa entrega anualmente a entidades dispostas a agitar bairros ou zonas “de intervenção prioritária”, depois um segundo. Instalaram-se numa pequena parte do imóvel, a mais preservada, e puseram-se a pensar o que fazer para o tornar um “equipamento com usos múltiplos”. Isso esteve sempre na base. “Não é suposto ficar uma coisa fechada, a ideia é precisamente abrir. Abrir para os dois lados: fingir que as duas linhas de comboio não existem”, diz Ana Catarino.

Abrir para os bairros de realojamento que ficam para cima da linha de cintura, ainda isolados e alvo de estigma; abrir para as urbanizações, empresas e projectos artísticos que se instalam junto ao rio, e que têm originado uma significativa mudança urbanística e demográfica na zona.

Quando a câmara lhes deu a chave do palácio, os arquitectos montaram um gabinete e abriram as portas. “Os moradores passavam, vinham contar coisas, tiravam dúvidas, iam a casa buscar objectos, lembravam-se de outras coisas”, relata Ana. “Insistimos muito em ter um gabinete aqui para conseguir a confiança das pessoas”, acrescenta Paula.

O projecto foi-se construindo assim, com contributos de quem os quisesse dar, sessões de cinema e reuniões comunitárias para assentar ideias e limar arestas. Chegou-se a um consenso: o palácio podia ter habitações temporárias para refugiados ou para vizinhos com obras em casa, por exemplo. Ao mesmo tempo, porque em 2000 metros quadrados cabe muita coisa, haveria espaço para cultura e valências sociais.

Com uma proposta concreta em mãos, o atelier dirigiu-se à câmara de Lisboa em Março de 2017 para decidir o que fazer a seguir. Apesar de elogios de vária origem, esbarrou num financiamento negado porque o valor pedido era bastante superior ao previsto no regulamento de apoios. Esbarrou depois num calvário burocrático e de silêncios que uma representante do atelier foi, em Junho, denunciar à reunião pública da autarquia. Tinham passado dois anos num impasse.

Ao ouvi-la, Fernando Medina exasperou-se. “Precisamos, como pão para a boca, que estes projectos aconteçam”, disse o presidente da câmara, garantindo que era a primeira vez que estava a ouvir falar deste assunto. “Eu conheço bem aquele território e digo-vos uma coisa: qualquer pessoa que conheça bem aquele território percebe bem a dificuldade de agir naquele território, a urgência e importância de agir naquele território. E qualquer tipo medianamente aberto percebe que haver gente que trabalhe naquele território… nós só devemos é apoiar.”

Nestes dois anos em que o projecto esteve em banho-maria, as coisas alteraram-se. Não é que tenha de ir tudo para o lixo, mas o que era verdade em 2017 já não o é agora. “Estava-se no pico da crise dos refugiados”, refere Paula Miranda. “E esta era uma zona em que ainda se podia ir a tempo na anti-gentrificação”, continua.

Há umas semanas, Fernando Medina visitou o Palácio dos Marqueses de Abrantes com uma extensa comitiva de responsáveis e técnicos camarários de vários departamentos. Ficou um ponto assente: em vez de habitação temporária, o projecto deve virar-se agora para habitação permanente. O resto é uma folha em branco – ou quase.

“A ideia é ter aqui pessoas que tenham interesse em manter vida de bairro, que vão aos cafés, aos restaurantes, às mercearias”, explica Paula. “O ‘para quem’ não se alterou: é para quem cá está e para novas pessoas”, acrescenta Ana.

A folha quase em branco começará a ser desenhada em breve, quando o atelier se instalar ali novamente. “Que isto tenha utilidade para fazer face às necessidades de Lisboa”, deseja Ana.