Torne-se perito Reportagem

No PC como na vida, Marvila é work in progress

A biblioteca de Marvila desafiou estudantes e profissionais a desenharem videojogos sobre a freguesia, um exercício que misturou História, arte e pensamento crítico sobre o futuro.

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Miguel Manso

A voz alta de António Miranda rompe a pacatez do fim da tarde. “Vamos circular por um espaço cuja realidade até há pouco tempo não tinha nada a ver com os prédios que aqui estão”, anuncia, aguçando a curiosidade da pequena plateia. À porta da Biblioteca de Marvila, o técnico da câmara de Lisboa começa a contar histórias de tempos remotos, que exigem imaginar uma paisagem muito diferente, eliminar aqueles blocos coloridos e uniformes, entrever campos agrícolas, quintas e fábricas.

Estão a ouvi-lo umas dez pessoas, a maioria adolescentes de escolas próximas, que franzem o sobrolho: então disseram que era para criar um videojogo e agora levamos com uma aula de História? A seu tempo, tudo se explicará.

Por agora, António Miranda conduz o grupo pela rua abaixo até à linha ferroviária de cintura, enquanto aponta para um lado e para o outro. “Todas as quintas aqui são do século XVIII, mas construídas sobre outras reminiscências. Esta zona foi predilecta da nobreza por causa dos bons ares. Nos séculos XIX e XX é que se deu aqui a grande industrialização. E com a desindustrialização esta zona ficou esquecida”, resume.

As pessoas que lhe seguem os passos e o raciocínio vieram participar numa game jam inserida no BiblioGamers, um festival de videojogos organizado pela Biblioteca de Marvila que vai na segunda edição. “Que se perceba o mundo dos videojogos como uma porta para outras aprendizagens”, explica Paulo José Silva, coordenador deste equipamento cultural que há muito se assumiu como mais do que apenas um sítio onde há livros.

Uma game jam é um encontro em que os participantes têm um curto período de tempo – neste caso, 48 horas – para desenhar um videojogo. O tema só é revelado mesmo em cima de o cronómetro começar a trabalhar, para evitar batotas. “São raríssimas as game jams fora de ambientes universitários”, comenta Ana Mota, da empresa de produção de jogos Bapa Dreams, responsável por esta iniciativa. “Há sempre equipas mas sérias do que outras, mas normalmente apresentam alguma coisa que se pareça com um videojogo”, ri-se.

No grupo já se vai vislumbrando porque é que António Miranda está a fazer esta visita guiada à parte antiga de Marvila. Descendo a Azinhaga dos Alfinetes e subindo à esquerda pela Rua de Marvila, o historiador explica o que se verá de seguida. “Há poucas vítimas entre a nobreza no terramoto de 1755 porque a maior parte da aristocracia encontrava-se nas suas quintas de lazer”, que se situavam aqui mesmo, nesta freguesia longínqua do Terreiro do Paço. “Muitos nobres são obrigados a vender ou arrendar as suas propriedades” para suportar os custos de reconstrução das suas casas no centro de Lisboa, diz.

As quintas apalaçadas são progressivamente ocupadas por rendeiros e divididas. A revolução maior virá com o século XIX, com os alvores da industrialização e a instalação de inúmeras fábricas neste território. “A cidade não está minimamente preparada para receber este fluxo migratório, milhares de pessoas, que primeiro ocupam as poucas casas disponíveis, depois os palácios. Ocupam toda a parte edificada e todos os terrenos em volta enchem-se destas construções, que se chamam pátios”, explica o historiador.

A meio da rua ainda é possível descortinar a silhueta do antigo palácio dos Marialva, agora retalhado em pedaços infindos com inúmeras janelas, cada qual correspondendo a uma casa ocupada por operários e ainda hoje habitadas.

A escola desejada

“Marvila: passado, presente e futuro”. De regresso à biblioteca, Ana Mota revela aos participantes o tema da game jam. Quem não esteve atento às explicações de António Miranda ainda tem uma oportunidade de redimir-se, assistindo ao documentário Vidas e memórias de bairro, que se exibe logo a seguir. É um projecto das Bibliotecas de Lisboa para registar em vídeo as recordações dos habitantes da cidade. Vários marvilenses surgem no grande ecrã a relatar episódios da sua meninice.

Um deles servirá de inspiração à equipa vencedora da game jam, conhecida daí dois dias, depois de uma maratona em que cada um dos 37 participantes só dormiu umas três ou quatro horas por dia. Inês Garcia (arte), Nuno Xu (programação), Tiago Cruz (narrativa) e Rodrigo Pinheiro (música e interface) convenceram o júri com o jogo Marvila in Progress, que, para simplificar, diremos que é uma espécie de SimCity aplicado ao território de Marvila.

O jogo parte de um acontecimento real e ainda atravessado na garganta dos marvilenses: o encerramento da escola Afonso Domingues, em 2010, por estar no caminho do que seria a terceira travessia sobre o Tejo. A ponte nunca se fez, a escola nunca reabriu. No Marvila in Progress, o objectivo é construir a escola, mas passando primeiro por vários momentos históricos: o Terramoto, a industrialização, uma explosão na fábrica de material de guerra, o 25 de Abril. O jogador tem de ir equilibrando o dinheiro disponível com o volume de comida e conforto até conseguir erguer a escola.

“Esta foi a minha terceira game jam e achei extremamente original conhecermos primeiro a zona para nos inspirarmos”, diz Inês Garcia, que passou grande parte da visita guiada a tirar fotografias, enquanto Tiago Cruz tomava notas. “É uma forma refrescante de olhar para as histórias. A história ganha outra vida”, comenta.

“Os miúdos vinham à biblioteca só para jogar e nós quisemos mostrar-lhes o outro lado”, conta Paulo Silva sobre toda a programação do BiblioGamers, que este ano incluiu ateliers de programação, escrita criativa e desenho, bem como palestras, competições e festa. “Isto desenvolve uma série de competências: trabalhar em equipa, gerir projectos, dar valor ao trabalho, à tentativa e erro”.

“Os jogos podem ser para qualquer pessoa, de qualquer idade, qualquer geração”, afirma Inês Garcia, acrescentando que um simples jogo pode transmitir conhecimentos de História, História de Arte ou Estética, entre outros. Tiago Cruz, que coordenou um atelier de escrita para videojogos, saiu de lá muito satisfeito. “As crianças não se apercebiam de que os jogos têm uma narrativa. Muitos deles, quando acabaram, perguntaram se podiam continuar a história em casa”, relata.

Para a equipa, não há estranheza em ver este tipo de eventos numa biblioteca. “As bibliotecas são espaços de partilha de informação”, diz Rodrigo Pinheiro. “Em muitos sítios é o centro comunitário que não existe naquela zona”, lembra Nuno Xu. E Inês remata: “As bibliotecas do século XXI devem andar de braço dado com as novas tecnologias”, pois os videojogos são “das ferramentas mais completas que existem”. Tiago aponta ainda outra vantagem. “Portugal é extremamente rico em histórias e narrativas. Pegar nisso e pôr em videojogo é perpetuar, até em termos escolares pode ser interessante.”

Nesta game jam todas as equipas apresentaram jogos no fim, o que é raro acontecer. E “a qualidade dos protótipos estava acima do esperado”, sublinham Ana Mota e Paulo Silva. Os videojogos vão continuar a estar na vida da biblioteca – e quem sabe, de Marvila.

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