Morreu Ben Ali, o primeiro ditador derrubado pela Primavera Árabe

O antigo Presidente tunisino estava exilado na Arábia Saudita desde 2011, quando foi derrubado depois de governar o país por 23 anos.

O antigo ditador morreu poucos dias depois de os tunisinos terem ido às urnas para a primeira volta das presidenciais
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O antigo ditador morreu poucos dias depois de os tunisinos terem ido às urnas para a primeira volta das presidenciais LUSA/STRINGER

O antigo ditador tunisino Zine El-Abidine Ben Ali, que governou o país magrebino durante 23 anos, morreu esta quinta-feira na Arábia Saudita, para onde se tinha exilado depois da revolução de 2011 que foi o gatilho da Primavera Árabe.

A sua morte, aos 83 anos, ocorreu poucos dias depois de uma das mais imprevisíveis eleições presidenciais na história tunisina, em que dois candidatos sem historial político foram os mais votados. Este seria um cenário difícil de antecipar há pouco menos de dez anos, quando Ben Ali e o seu círculo familiar controlavam com mão de ferro os destinos da Tunísia.

O regime repressor que construiu ao longo de duas décadas não resistiu a algumas semanas de protestos populares iniciados no final de 2010. Cercado, a Ben Ali apenas restava a fuga inglória e pouco digna para a Arábia Saudita, para escapar à fúria do seu povo, frustrado por anos de opressão, corrupção e pobreza. O Le Monde descreve-o como um homem odiado de forma quase unânime. “Mesmo aqueles que lucravam com o sistema que ele instaurou o detestavam”, escreve o diário francês.

Depois de uma carreira entre o aparelho securitário do Estado e uma breve passagem como embaixador em Varsóvia, Ben Ali ascendeu ao poder em 1987 depois de afastar o primeiro Presidente pós-independência, Habib Bourguiba.

Conhecedor dos meandros das forças de segurança, Ben Ali foi rápido a montar o Estado policial que iria garantir a sua manutenção no poder nas décadas seguintes. O primeiro alvo foram os grupos islamistas, em nome de uma laicidade levada ao extremo. Depressa se volta contra qualquer um que ouse criticá-lo, abolindo partidos (apenas era permitida uma oposição “leal) e esmagando a sociedade civil.

Nos primeiros anos, a abertura económica permitiu alguma prosperidade económica, mas a desigualdade económica persistiu. Enquanto o desemprego entre os jovens – votados a emigrar – disparava, e nas pequenas aldeias do interior faltava a infraestrutura mais básica, a clique que rodeava Ben Ali enriquecia.

O saque do Estado acentuou-se após o segundo casamento do ditador com Leila Trabelsi, uma ex-cabeleireira 21 anos mais nova que Ben Ali. Quando foi deposto, o ditador tinha uma fortuna pessoal avaliada em cinco mil milhões de dólares (4,5 mil milhões de euros).

Os protestos contra o regime foram tornando-se mais frequentes, mas a peça primordial para a sua queda foi o acto desesperado de um homem só. A 17 de Dezembro de 2010, Mohamed Bouazizi, um vendedor de frutas e legumes de 26 anos na pequena cidade de Sidi Bouzid, imolou-se depois de a polícia ter confiscado os seus produtos. O resto da história é conhecida e terminou menos de um mês depois, com a fuga de Ben Ali, quando já nem a violência contra o seu povo lhe valia.