Jogar à bola e ir às compras: Carnaxide na rota de um “resort comercial” e desportivo

Termina esta quarta-feira uma consulta pública sobre o projecto Aquaterra, com o qual um investidor britânico quer revolucionar o sector do retalho. No local passa um aqueduto que faz parte do conjunto classificado do Aqueduto das Águas Livres.

Carnaxide
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É para este local que está previsto o empreendimento carlos manuel martins

Um centro comercial, um ginásio, academias de futebol, ténis e padel, lagos, restaurantes, um parque público. É este o projecto que uma empresa imobiliária britânica quer implementar num vasto terreno em Carnaxide, concelho de Oeiras, paredes meias com os complexos comerciais e empresariais de Alfragide.

O Aquaterra, assim se chama o empreendimento, deverá nascer numa zona com mais de cinco hectares por onde passa o Aqueduto das Francesas, que faz parte do conjunto classificado do Aqueduto das Águas Livres. É por esse motivo que o projecto está em consulta pública, até esta quarta-feira, podendo ser comentado na plataforma Participa.

Ainda em fase de estudo prévio, o Aquaterra “pretende oferecer um shopping resort relacionando intimamente o conceito comercial com uma oferta vincada de entretenimento, desporto e lazer, quebrando com os conceitos de shopping tradicional virado para si mesmo”, pode ler-se no relatório técnico disponível para consulta.

PÚBLICO -
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Fotomontagem da implantação do projecto naquela zona DR

William Blake Loveless, gerente da empresa Jackyl, que detém o terreno, diz ao PÚBLICO que ainda não encontrou a melhor maneira de descrever a sua ideia. “Não gosto de usar a expressão ‘centro comercial’ para falar deste projecto, porque não é”, afirma o investidor. “Queremos criar algo com uma componente de retalho, porque é o que financia tudo o resto, mas o que queremos fazer para que seja divertido e interessante é ter uma componente desportiva muito grande. Uma academia de futebol, uma academia de ténis, um grande lago, concertos, espaços abertos, restaurantes”.

O relatório concretiza a proposta com números. Está previsto um centro comercial com sete pisos, quatro deles subterrâneos, com uma área total superior a 231 mil metros quadrados, junto à recta dos Cabos d’Ávila. Daí partirão os lagos, em três níveis, até perto do limite do terreno, que confina com uma gasolineira. No primeiro nível nascerá “uma zona de restauração de rua, do tipo slow food com restauração de autor e zona de esplanadas”, promete o documento, garantindo ainda “uma zona de contemplação onde possam existir jogos de água e exibições a horas específicas do dia para entretenimento do público”.

“A partir daqui a água cai sob a forma de cascata para o segundo nível de água, uma zona mais ligada ao lazer das famílias e onde se poderá percorrer o lago em pequenos barcos ou fazer desportos aquáticos como stand up paddel ou kaiak. No nível inferior, o terceiro, procura-se proporcionar uma experiência mais dramática e ligada ao desporto outdoor”, informa o relatório.

Para a zona central do empreendimento está previsto um edifício de sete mil metros quadrados para albergar lojas de desporto e um ginásio. Já junto a um bairro de moradias ficarão as academias desportivas: quatro campos de futebol de diferentes dimensões, 11 campos de ténis e seis campos de padel. A isto soma-se um parque de estacionamento subterrâneo com 3.497 lugares e vários à superfície com mais 216.

Uma “tela branca”

O terreno para onde o Aquaterra está projectado fica próximo de dois centros comerciais e vários hipermercados, além de centenas de empresas, sendo já hoje uma zona de grande congestionamento automóvel. O plano não contempla, no entanto, alterações viárias de monta, para além de algumas que a câmara de Oeiras já tinha planeadas. “Fizemos um estudo de tráfego e a infra-estrutura actual é suficiente. As estradas actuais são suficientes para dar acesso ao local”, afirma Blake Loveless.

O investidor diz-se empenhado em ouvir as preocupações e sugestões de quem mora nas redondezas e dos futuros utilizadores do espaço. A consulta pública a decorrer – à hora de fecho, com uma dezena de participações – é um primeiro passo a que a Jackyl estava legalmente obrigada. Mas outras fases se seguirão.

“As pessoas olham para os investidores estrangeiros e pensam que eles são inimigos, mas eu digo isto com convicção: eu orgulho-me de tudo o que faço. Quero criar algo que faça as pessoas felizes”, proclama Blake Loveless. “O último grande centro comercial de Lisboa foi construído há 25 anos. O último centro comercial, sem ser grande, é de há dez anos. Aquilo que as pessoas querem agora e o que queriam há 20 anos é diferente.”

“É muito raro ter a oportunidade de desenhar numa tela branca. Normalmente compra-se algo velho e tenta-se que ele fique melhor, mas neste caso começamos com um campo verde e dizemos: ‘A vida é diferente do que era, as pessoas esperam coisas diferentes, porque não exploramos hipóteses para ter algo divertido?’”, continua Loveless. “Seria interessante fazer um inquérito: temos aqui um campo verde e temos de ter algum retalho porque isso é que vai pagar as contas. Mas temos o resto do espaço, vamos lá fazer algo espectacular.”

O empresário, que em Portugal é dono deste terreno e do quarteirão da Suíça, em Lisboa, afirma também que quer um projecto “idealmente com zero emissões” de gases poluentes e em harmonia com o meio envolvente. “Podemos abordar este projecto de uma forma muito moderna. E não estou a falar de ser moderno na arquitectura, mas de tecnologia, reciclagem da água, painéis solares, redução de tráfego, etc.”

Tanto este terreno como a confinante Serra de Carnaxide são uma das últimas manchas dos concelhos de Oeiras e Amadora que não estão totalmente ocupadas por construção. Para a serra, que fica a pouca distância, há vários empreendimentos a erguer-se e outros na calha, agora que os sectores imobiliário e da construção saíram da crise crónica. Por esse motivo tem crescido a mobilização cidadã, sobretudo do lado de Oeiras, para travar novos projectos naquela área.

O estudo prévio agora em consulta pública antecede um pedido de alteração do alvará de loteamento em vigor, que Blake Loveless conta entregar em meados de Outubro. O alvará, aprovado pela câmara de Oeiras em 2002, contempla actualmente um hotel, uma academia de golfe e edifícios de escritórios. A intenção da Jackyl é transferir as capacidades construtivas previstas em alguns lotes para outros, sobretudo para o do centro comercial.

Quanto ao Aqueduto das Francesas, o relatório feito por uma empresa de arqueologia diz que “os trabalhos previstos para a construção do empreendimento envolvem um grande volume de movimentos de terras”, cujas consequências “poderão ser críticas, condicionando a estabilidade da estrutura”. Estando num estado de conservação “razoável”, o aqueduto pode sofrer com a passagem de veículos pesados, a movimentação de terras e com a própria construção dos campos de futebol e dos lagos imediatamente por cima, lê-se no relatório. Porém, dizem os seus autores, os riscos podem ser minimizados e o empreendimento não é incompatível com a preservação do património.