Mag Rodrigues
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Mag Rodrigues
Conto

Palavra de honra

Depois de ter dado um salto atabalhoado para a água com direito a um sonante chapão, motivo de risota para o meu colega que estava deitado na toalha a comer batatas fritas de pacote como se não houvesse amanhã, saí da piscina e fui até aos balneários.

Como garantia deu a sua palavra de honra e eu, feito parvo, acreditei. Disse-me que depois daquilo nos íamos ver. Fingiu viver de acordo com a minha inocência e deu-me a sua palavra de honra — fiquei comovido com a expressão e tudo, nunca tinha ouvido algo assim sem ser nos filmes. A verdade é que depois daquilo nunca mais a vi. Continuei a ir à piscina municipal todos os dias que se sucederam àquilo, até chegar Setembro e acabar a época balnear. Fecharam a piscina. Em breve recomeçariam as aulas e voltaria para a dinâmica normal dos dias de escola. Fiquei sem um único vestígio da sua existência a que me agarrar. Ainda pesquisei nas redes sociais pelo nome Ana, foi o nome que ela me disse ter, mas para além de poder ser mentira, existiam milhares de Anas; era como tentar desencantar um específico grão de areia na praia. Às tantas comecei a pensar se não tinha alucinado com aquilo, se não tinha imaginado a existência daquela mulher. Mas não, aquilo aconteceu mesmo. Estávamos na piscina municipal quase vazia. Fez pouco calor nesse verão. Já tinha topado uma cota bem gira a fingir que estava a ler e a micar-me discretamente, enquanto eu me exibia feito anormal para o meu colega de turma do alto da prancha de saltos. Era uma mulher bem feita, loura, e mesmo ao longe podia dizer que tinha idade para ser minha mãe, isso de certezinha. Depois de ter dado um salto atabalhoado para a água com direito a um sonante chapão, motivo de risota para o meu colega que estava deitado na toalha a comer batatas fritas de pacote como se não houvesse amanhã, saí da piscina e fui até aos balneários. A minha mãe ensinou-me desde cedo que é nojento urinar dentro da piscina. Nunca o faço. Mal entrei na casa-de-banho, senti a cota atrás de mim. Fiquei atrapalhado.

— Desculpe, deve ter-se enganado.
— Ah, pois foi, que disparate — disse ela, mas sem fazer menção de sair. — Como é que te chamas?
— Pedro — disse-lhe, sem perceber qual era a sua intenção.
— Sou a Ana. Olá. De certeza que já te disseram que és um rapaz muito bonito — avançou na minha direcção e pude ver-lhe algumas rugas de expressão junto aos olhos e à boca, ainda assim era uma mulher atraente.
— Desculpe, não percebi — balbuciei encavacado.
— És bonito. Sabes isso, certo? — insistiu a mulher de fato-de-banho preto muito colado ao corpo que lhe destacava os seios fartos, avançando ainda mais na minha direcção.
— Não sei o que dizer — disse-lhe cheio de receio.
— Não digas nada então. Anda comigo. Vais gostar disto, palavra de honra. 

Pegou-me na mão e arrastou-me suavemente para uma das divisórias da casa-de-banho, fechando a porta atrás de mim. O que me fez naquele cubículo a cheirar a cloro e a urina nunca direi. Não sei dizer se gostei, mas não consigo tirá-la da cabeça. Deu-me a sua palavra de honra que nos encontraríamos na piscina no dia seguinte. Não apareceu. Tenho esperança de a encontrar no próximo Verão, nessa altura já terei 16 anos. Se um dia a encontrar, hei-de vingar-me.