Opinião

O planeta entre a Amazónia e o futuro

Os decisores políticos gostam de alimentar o catastrofismo em vez de procurarem soluções concretas. Não podemos deixar que o sono da razão e a inércia da acção engendrem monstros que põem em causa o futuro.

Os incêndios na Amazónia deram novo impulso à luta contra a ameaça climática. Esta luta tem sido inconsistente, repousa na emoção e é importante mudar o foco porque o problema é grave. Estamos a viver hoje o cenário que Shakespeare antecipou: um mundo em que os loucos governam os tolos. A Amazónia está a ser destruída sob a passividade da comunidade internacional. As consequências são drásticas porque a Amazónia é essencial para regular o clima global, é um formidável sumidouro de carbono, a floresta absorve parte do CO2 emitido pelo planeta e contribui para mitigar o aquecimento global. Mas a mortalidade das plantas, os incêndios e a seca, formam uma mistura tóxica. Só entre 2005 e 2010, o carbono perdido para a atmosfera, com esse processo de destruição, é equivalente a todo o CO2 que a floresta amazónica absorve durante uma década. Não só deixa de absorver como emite para a atmosfera. O dano é duplo e perigoso.

Nos últimos 50 anos a floresta amazónica brasileira perdeu 800 000 Km2, cerca de 20% da sua área. Só no último ano (entre Julho de 2018 e 2019) perdeu mais de 1 000 milhões de árvores. É a maior taxa de desflorestação da última década. A ameaça climática é dramática, mas a ameaça Bolsonaro pode ser pior. Bolsonaro é um misto de louco e tolo. Nega a ameaça climática. Negligencia a ciência e o conhecimento. Persegue as instituições científicas. Dissolve os fundos para a protecção da floresta. Insulta as ONG que lutam para a preservar. Não é o único responsável, mas é um dos piores porque deu luz verde à desflorestação da Amazónia, desmantelou os mecanismos legais para a protecção da floresta, enfraqueceu os sistemas de controlo e monitorização, incentivou as más práticas dos madeireiros, criadores de gado, produtores de soja, companhias mineiras. O desenvolvimento económico não pode ser feito à custa da danificação ambiental, porque no fim não haverá nem desenvolvimento nem ambiente.

A Amazónia tem 40% das florestas húmidas do planeta, que são essenciais para absorver CO2 e produzir oxigénio, através da fotossíntese das plantas. O seu papel é fulcral para a vida. Além disso a floresta amazónica é um paraíso da biodiversidade (alberga 15% das espécies terrestres do planeta) e é única porque produz muita da chuva que a alimenta e recicla a sua própria água. Se a desflorestação da Amazónia passar o limiar de 40%, a capacidade da floresta reciclar a sua própria água é posta em causa. Isto significa que o remanescente da floresta amazónica pode não ter água suficiente para sobreviver e as plantas ficam expostas a níveis cada vez mais elevados de CO2. Com a desflorestação, os incêndios, a seca, o aumento do aquecimento, as plantas precisam de menos ar para o seu processo de fotossíntese, absorvem menos CO2 da atmosfera, emitem menos vapor de água, o que leva à queda da pluviosidade e cria um ciclo vicioso infernal. Como vamos sair daqui?

Primeiro: é preciso que os decisores políticos mudem de atitude e tenham coragem. Os governos são inconsistentes nas suas políticas. As instituições internacionais fazem grandes proclamações e organizam reality shows, como o da menina que atravessa o Atlântico com o pai num iate de luxo para ir a Nova Iorque. Os problemas do clima não se resolvem com reality shows, jogos florais, excursões de luxo e iniciativas que apelam ao sentimento. É preciso mudar o foco e ter a coragem de sentar à mesma mesa todos os governos responsáveis pela Amazónia e definir um plano sólido capaz de parar a desflorestação, minimizar os riscos de incêndio, proteger a biodiversidade e acentuar a colaboração entre os países amazónicos e a comunidade internacional. E é preciso reflorestar a bacia Amazónica, recuperar a área ardida e plantar milhões de árvores na Amazónia e no mundo. A ameaça climática combate-se com uma visão abrangente, persistência, mais ciência e conhecimento, meios adequados para a fiscalização, leis claras, tolerância zero para os infractores e um plano sólido de cooperação.

Segundo: para conter a ameaça climática é preciso a coragem de sentar à mesa o G-4 do carvão (China, EUA, Índia e Japão), responsável por 75% do consumo. O carvão é o mais poluente dos combustíveis fósseis e é responsável por 30% das emissões de CO2 do planeta. A China consome mais de 50% do carvão e a Índia é o país em que o consumo mais cresce (9% em 2018). É preciso um plano global e um compromisso do G-4 para fechar a prazo as centrais a carvão e substituí-las por centrais a gás (o mais limpo dos combustíveis fósseis e que emite menos 60% de CO2) e por energias renováveis (em particular eólica e solar). Os governos da China e da Índia financiam a construção de muitas centrais a carvão através dos seus bancos estatais. Se esta tendência continuar, o destino do planeta está selado e a ameaça climática não pode ser parada.

Terceiro: é preciso ter a coragem de sentar à mesa o G-5 das emissões de CO2, (China, EUA, Índia, Japão e Rússia), responsável por 65% das emissões. Devem empenhar-se num plano claro para as reduzir, o que passa pela mudança da sua matriz energética. O planeta continua a depender, em cerca de 81%, dos combustíveis fósseis – petróleo, gás e carvão. Para fazer jus aos objectivos da Conferência de Paris e conter o aumento da temperatura em 1.5º C, é preciso reduzir, até 2040, 40% do consumo de carvão e 15% do petróleo e aumentar 15% do consumo de gás e 40% de energias renováveis. Isto é fazível com políticas públicas para promover a mudança. Que é possível foi demonstrado em 2015 e 2016 quando as emissões de CO2 estagnaram pela primeira vez, depois de terem aumentado ao ritmo de 1.7% ao ano nos últimos 30 anos. A estagnação deveu-se ao facto dos EUA terem começado a substituir as suas centrais a carvão por gás tendo diminuído o consumo de carvão em 13% em 2015 e 8% em 2016. Mas as emissões voltaram a subir em 2017 e 2018 porque não há consistência nos esforços e não há um plano sólido do G-5. Os decisores políticos gostam de fazer grandes proclamações e alimentar o catastrofismo em vez de procurarem soluções concretas. Não podemos deixar que o sono da razão e a inércia da acção engendrem monstros que põem em causa o futuro.