Opinião

Português e galego, “linguas irmás, ningunha submetida á outra”

A língua galega tem resistido ao longo dos séculos, apesar da escolarização em espanhol no século XIX e das imposições do franquismo no século XX.

A Galiza esteve de novo em foco entre nós, e ainda bem. O JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias) da primeira quinzena de Agosto reincidiu no tema, publicando (numa edição que dedicou a capa, com total merecimento, à escrita diarística de Eugénio Lisboa) a segunda parte de um dossier a que chamou “Galiza, aqui tão perto do coração”. O tema, desta vez, foi a língua. Ora por falar em língua, também a edição mais recente da revista LER (n.º 153) publicou algo que tem muito que ver com a Galiza: uma entrevista com o escritor e linguista Fernando Venâncio, intitulada “Nós, os galegos”.

Por provocatório que pareça, o título nasce de uma investigação a que Venâncio meteu ombros desde há muitos anos e que terá como corolário a edição, no final deste ano, de um livro. Ouçamo-lo: “Estou a escrever uma História das origens do nosso idioma, para sair no Outono. É uma História com várias histórias dentro, interessantes, apaixonantes mesmo, que nunca foram contadas e que eu quero por força contar. […] Gostaria de fazer com o idioma o que outros fazem com a astrofísica, ou o Jorge Buescu faz com a matemática e o Carlos Fiolhais com a ciência.”

Ora uma dessas histórias, como Venâncio explica na entrevista, é o caminho que a língua portuguesa tomou a partir do momento em que se afastou da Galiza (“em Aljubarrota, em 1385, o partido nortenho perdeu”) e se aproximou de Castela. Isto para concluir que “a nossa língua veio de fora e foi criada antes de haver Portugal”. Será uma leitura interessantíssima, conhecer os “alçapões da História do nosso idioma, como a intimidade com o galego e a proximidade com o castelhano”: “Ainda hoje juraríamos que ‘genérico’, ‘diamantino’ ou ‘pressuroso’ eram latinismos, mas não, foram criados pelo castelhano e importados pelo português. Uma coisa semelhante, aliás, se deu, e ainda se está a dar hoje, no galego.”

Pois voltando à Galiza, e à sua língua, esta tem resistido ao longo dos séculos, apesar da instituição da escolarização em espanhol, “por volta de 1850” (ainda citando Venâncio), e do franquismo (1939-1977), que impôs o castelhano como idioma único em todo o território. Disso mesmo nos dá conta a entrevista publicada no JL com Victor Freixanes, presidente da Real Academia Galega (RAG) e cujas respostas foram mantidas em galego, assim como dois textos publicados no mesmo dossier.

E o que diz Freixanes que se aproxima de Venâncio? Isto: “O portugués e o galego nacen num mesmo territorio e cunha experiencia histórica común, a Gallaecia. Somos pois linguas irmás, ningunha submetida á outra.” Para quem acha que o galego seria um português “menor”, uma visita à RAG online desfará dúvidas. Em lugar de vocabulário, há um dicionário completíssimo de acesso livre e fácil consulta, com exemplos, frases, conjugações verbais e até mesmo ortoépia, o som de cada palavra.

Mas a RAG, fundada em 1906, tem uma concorrente bem mais nova, a Academia Galega da Língua Portuguesa, fundada em 2008 e defensora do reintegracionismo, ou seja, da união linguística entre a Galiza e Portugal mas por via do português do Acordo Ortográfico de 1990, o tal que se propôs (desastrosamente) “unificar” a grafia em todo o espaço lusófono.

A isto, o que diz Freixanes? “A língua galega, sem renunciar á súa identidade, con moi pouco esforzo, permítenos relacionarnos cunha amplísima comunidade de falantes en todo o mundo.” Mais: “O galego pode e debe ser unha fermosa ponte para coñecer o portugués e aproveitar a utilidade do irmán espallado pólo mundo. Digo que pode ser unha ponte para a aprendizaxe, non para ser substituído. Iso sería negar a realidade da propia Galícia.”

O mais curioso é que tais afirmações sejam feitas num jornal (o JL) que é um dos paladinos do inominável AO90, a ponto de “traduzir” para acordês textos de autores que recusam tal acordo e que não o usam na sua escrita. Só que, desta vez, por “amor” à Galiza, teve de admitir palavras galegas que mantêm as ditas consoantes mudas que o AO90 liquidou na escrita portuguesa. Texto a texto (são três), aqui vão elas, pela ordem em que surgem (as repetições, e são várias, foram ignoradas).

Na entrevista com Freixanes lê-se: obxectiva, espectacular, actual, espectaculares, afecta, actuar, activa, dirección, respecto, proxección, proxecto, carácter, obxectivos, actualización, redacción, seccións, activo. No texto “O teatro actual, un espazo estimulante” temos estas: concepto, caracterizam, espectáculo, activo, dirección, directores, activas, actualmente, espectadores, proxectos, directora, ruptura. E no texto “A industria cultural” (assim mesmo, sem acento, como se escreve na língua galega) há ainda estas: sector, actividade, sectores, actualidade, perspectiva, factor, contracción, afectado, actividades, características, proxectos, proxección, directo, optimismo, sectorial, colectivos.

Por isso já sabem: se detestarem as “inovações” do AO90 e quiserem escrever para o JL, já que o português de 1945 é ali ortograficamente indesejado (ao contrário do português do Brasil, cuja aceitação pelo JL se deve aplaudir e incentivar), tentem o galego. Talvez não lhes mexam numa só vírgula.