É o fim do comércio de lontras: “Ainda que sejam queridas, é errado tê-las como animal de estimação”

O cenário é adorável: uma pequena lontra no nosso colo, enquanto tomamos um café. Mas a imagem perde o encanto quando nos lembramos de que não é suposto as lontras viverem em cafés. No Japão, os otter cafes (cafés de lontras, em português) são bastante populares e têm vindo a aumentar. O fotojornalista Aaron “Bertie” Gekoski mostra como estes animais vivem neste documentário de 20 minutos: fechadas em gaiolas ou vitrines de plástico, com pouco ou nenhum acesso a água (essencial ao seu bem-estar, uma vez que elas passam maior parte do tempo na água), com uma dieta inapropriada (em vez do peixe que comeriam em ambiente natural, um dos cafés que Aaron visitou serve queijo aos animais para os acalmar). 

E o problema não se esgota aqui. Além do stress a que são sujeitas, quer física quer psicologicamente, muitas destas lontras são comercializadas de forma ilegal. Ainda que os proprietários destes espaços afirmem que são importadas legalmente da Tailândia ou Indonésia, “não há documentação que o prove”, explica um investigador da World Animal Protection, que trabalhou em segredo para descobrir informações sobre este negócio. No documentário conta como a polícia japonesa começou uma investigação “para tentar encontrar ligações à máfia na operação de importação”. O investigador acredita que a Yakuza, uma rede japonesa de crime organizado, possa estar envolvida no processo.

Mas o panorama pode vir a mudar: este domingo, 25 de Agosto, uma centena de países votou a favor da inscrição da lontra comum no Anexo I da Conferência CITES, o que significa que passa a ser proibida a sua comercialização internacional. Esta espécie já estava nas listas do Anexo II como espécie ameaçada, mas a Índia, o Nepal, o Bangladesh e as Filipinas pediram que fosse incluída no Anexo I. A proposta foi votada na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres (CITES) Ameaçadas de Extinção e deverá ser votada novamente na quarta-feira, 27.

A população de lontras comuns e cinzentas caiu pelo menos 30% nos últimos 30 anos, principalmente devido à moda das lontras como animais de companhia. Além do Japão, também no Canadá esta prática é habitual. Agora, graças à classificação no Anexo I, o cenário pode começar a mudar: a classificação “beneficiará essas espécies de lontras, enviando os sinais necessários, em particular ao público e na Internet e nas redes sociais, de que o comércio é prejudicial ao bem-estar e sobrevivência” das lontras, alertou, citado pela agência Lusa, Sumanth Bindumadhav, em nome de uma coligação de 26 organizações não-governamentais.  

O sucesso destes animais deve-se, em grande parte, às redes sociais: “Estudos recentes mostram que há mais de 750 mil subscritores de conteúdos relativos a lontras”, refere o fotojornalista. Cassandra Koenen, directora da World Animal Protection e uma das entrevistadas no documentário, explica que “o aumento de cafés de lontras no Japão, bem como a quantidade de lontras que estão a aparecer no Instagram, está a impulsionar o comércio de animais e o desejo de ter uma lontra como animal doméstico”. Mas Leona Wai, investigadora de lontras, relembra: “Elas são animais selvagens, ainda que sejam queridas, elas não se comportam como cães ou gatos. É errado ter uma lontra como animal de estimação.”

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