Mag Rodrigues
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Conto

O gesto obsceno

O problema da Senhora de Milo é raro e talvez único no mundo. Já foi vista por vários especialistas — psiquiatras, ortopedistas, neurologistas, bruxas e até críticos de arte. E nada, não se encontrou a causa, a origem do defeito.

A Senhora­ de Milo não consegue controlar as mãos. Sempre que é confrontada com uma situação incómoda, os seus dedos, as mãos e, por vezes, até os braços, manifestam-se de forma rude. Inadvertidamente. Por exemplo, na última consulta no ginecologista. Quando se preparava para mostrar os seios — envergando apenas a peça de roupa inteiriça que lhe cobria os membros inferiores —, a mão direita soltou-se e executou o gesto obsceno. Apesar de ter pedido desculpa, foi escorraçada do consultório.

Outro exemplo aconteceu quando a chamaram ao gabinete do superintendente. Pôs as mãos dentro dos bolsos da farda e segurou as mãos ao forro com toda a força que a discrição lhe permitia, já pressentindo o pior, mas não conseguiu ouvir sequer o que o chefe lhe dizia — a mão direita soltou-se da algibeira e executou o gesto obsceno. De nada lhe valeu o extremoso pedido de desculpas. Disseram-lhe, mais tarde, que fora chamada com o intuito de a promoverem, só que, em vez do progresso na empresa, acabou por ser despedida.

O historial destes acontecimentos era extenso, tinha começado na infância. Por duas vezes reprovou de ano, ainda na escola primária, por ter feito o gesto obsceno a vários colegas e educadoras. Teve de desistir da instrução. Por isso, os seus trabalhos foram sempre maus e mal remunerados. Recorrentemente desempregada, despedida por justa causa sem direito ao fundo de desemprego, sem amigos ou parentes que a quisessem por perto. A Senhora de Milo teve de admitir, a situação ficara grave.

O seu problema é raro e talvez único no mundo. Já foi vista por vários especialistas — psiquiatras, ortopedistas, neurologistas, bruxas e até críticos de arte. E nada, não se encontrou a causa, a origem do defeito.

Um dia, e por acaso — toda a gente sabe que muitas das melhores coisas acontecem sem as termos previsto —, enquanto procurava um novo trabalho nos classificados de jornal, veio para a sua beira, ao balcão, um jovem lindíssimo. Observou-o bem através da sua visão periférica. O motivo da aproximação fora por certo apenas espacial, o snack-bar onde pesquisava os anúncios era estreito. O problema é que a proximidade de uma excelência daquelas, praticamente a roçar o braço nu com o seu braço ao balcão, começou a causar-lhe o tal desconforto que catapulta o já supracitado gesto obsceno. Tentou concentrar-se na leitura dos anúncios, fazendo-se passar por míope, aproximando a cara do papel com tinta. Porém, o moço falou-lhe. “Desculpe, tem horas que me diga?”

Mal esticou o pulso na tentativa de auscultar o mostrador do relógio, logo o gesto obsceno se revelou em todo o esplendor, mesmo junto à cara do rapaz. O que surpreendeu foi o riso do jovem, no lugar da acostumada agressividade ou indignação face ao dito gesto; um riso pueril, solto e alto, sem ser desbragado. Riu-se por alguns segundos e a Senhora de Milo observou-o com estupefacção, e logo o gesto obsceno se desfez. Todos os que se encontravam ao balcão começaram a rir também, ao ouvirem o rapaz, mesmo sem saber por que riam, como uma espécie de contágio. Dava gosto ouvir tantas pessoas rir. Depois, o riso amainou. A Senhora de Milo olhou para o relógio de pulso e indicou-lhe as horas. O rapaz agradeceu, efectuou o pagamento junto do empregado e saiu. A Senhora de Milo nunca mais fez o gesto obsceno nem mesmo nas ocasiões em que teria sido útil. Respondeu ao anúncio de trabalho numa fábrica de mármore. Foi admitida e serrou os braços.