Opinião

A grande greve nacional à indignação

Em Portugal, ou melhor, entre os portugueses, parece vigorar, há muito, esta greve poderosa e extraordinariamente mobilizadora – a grande greve nacional à indignação – que se manifesta, usualmente, na adopção de uma atitude de encolher de ombros.

A reflexão acerca da greve dos motoristas de matérias perigosas, da consequente requisição civil e dos eventuais (e mais do que prováveis) precedentes que se abrem para greves futuras, levou-me a pensar acerca desse outro fenómeno nacional que é a grande greve nacional à indignação: uma greve muito mais prolongada e de efeitos bem mais devastadores do que terão sido os dos incómodos da compra de uns jerricans, ou das filas de espera para encher os depósitos.

Sim, porque em Portugal, ou melhor, entre os portugueses, parece vigorar, há muito, esta greve poderosa e extraordinariamente mobilizadora – a grande greve nacional à indignação – que se manifesta, usualmente, na adopção de uma atitude de encolher de ombros ou, como forma de luta mais extrema, na produção de uns dichotes humorísticos, postos a circular nas redes sociais, perante toda e qualquer situação que nos prejudique, agrida ou vexe, enquanto cidadãos e pagadores de impostos e taxas várias.

Assim, surgem notícias sobre corrupção no Estado que lesam o mesmo, ou seja, que nos lesam a nós (porque somos cidadãos e pagadores de impostos e taxas várias) em milhares de milhões de euros e nós, na nossa convicta postura de grevistas à indignação, encolhemos os ombros, dizemos que “isto é tudo igual” e lamentamos não ter amigos, de bom coração, que nos paguem as contas, os estudos e as casas…

Ou lamentamos não ser proprietários, apenas, de uma pequena garagem insular ou de uma motorizada de quatro rodas. É que, afinal, sair-nos-ia substancialmente mais barato (enquanto pagadores de taxas) do que o IMI do nosso T2 na Rinchoa!

E surgem outras notícias acerca de nepotismos vários, ou, em bom português, de compadrios vários (atenção, que a expressão “compadre” é, neste caso, lata e aplicável a diferentes graus de parentesco e intimidade) e nós, na nossa convicção de grevistas à indignação, tornamos a encolher os ombros e publicamos umas piadolas no nosso mural de Facebook, com trocadilhos e montagens fotográficas, ao mesmo tempo que damos voltas à nossa cabeça, à nossa árvore genealógica, à memória da nossa bisavó, ou, até, à nossa agenda de 1985, para ver se não encontraremos, por acaso e fortuna, algum parentesco, ainda que remoto, com um desses generosos distribuidores de cargos e benesses públicos.

E surgem notícias acerca de um SNS que não funciona e em que, por exemplo, um recém-nascido ainda morre por falta de uma incubadora e nós, como grevistas convictos, lá voltamos ao nosso encolher de ombros, ao mesmo tempo que bendizemos o momento em que, ajuizados e previdentes, decidimos fazer um seguro privado de saúde.

E surgem outras notícias, acerca de processos judiciais que se arrastam durante anos, com as vítimas a sentirem-se, a cada dia que passa, ainda mais vítimas, e os transgressores, agressores ou criminosos, a sentirem-se, a cada dia que passa, ainda mais respaldados pelo sistema. E nós, na nossa inabalável mobilização grevista, encolhemos os ombros, ao mesmo tempo que nos congratulamos com a nossa pacatez e prudência de vida, a mesma pacatez e a mesma prudência que sempre nos permitiram ficar arredados dessas andanças pelos tribunais…

E apesar de não ser provável o fim desta grande greve nacional à indignação, afinal já tão prolongada e tão confortável e consoladora para o país, atrevo-me a sugerir que, pelo sim pelo não, cada português (cidadão e pagador de impostos e taxas várias) vá acumulando uns jerricans de 50 litros de resignação e mais uns quantos de jocosidades criativas para fornecimento das respectivas redes sociais.

E, obviamente, atrevo-me também a sugerir que o governo vá preparando, desde já, uma requisição civil que, neste caso, servirá, apenas, para garantir que o número de grevistas à indignação se mantém atestado no seu nível habitual, assegurando o regular funcionamento do país, pelo menos no que ao encolher de ombros diz respeito!

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