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A conteira é a planta com “todas as capacidades para substituir o plástico”

Um grupo de investigadores está a transformar a conteira, uma planta invasora em abundância nos Açores, numa alternativa ao plástico descartável. Já existem protótipos de pratos e copos e um consórcio europeu está a trabalhar em cuvetes para carnes.

Esta é a história de como um problema se transformou em solução. Um grupo de investigadores da Universidade dos Açores está a desenvolver um projecto que utiliza os componentes de uma planta invasora do arquipélago para a criação de materiais que substituem o plástico. “É um dois em um: estamos a encontrar uma solução para combater uma praga e, ao mesmo tempo, a criar valor para solucionar outros problemas”, explica ao P3 Telmo Eleutério, investigador de 27 anos e um dos membros da equipa que está a transformar a conteira numa alternativa sustentável ao plástico descartável.

Desde sempre que os açorianos atribuíram à conteira (ou hedychium gardnerianumcientificamente falando) vários usos: utilizam as folhas para enrolar o queijo fresco ou para servir de base na cozedura do pão e as crianças chupam a flor devido ao sabor adocicado. Qualquer pessoa que já tenha estado naquelas ilhas, por entre os mantos verdes que envolvem as estradas, certamente já reparou na planta vistosa com várias flores amarelas e estiletes vermelhos e compridos. Apesar da beleza, a conteira, originária dos Himalaias, ameaça a vegetação endémica da região. Os métodos para a domar — quer biológicos, quer químicos — foram ineficazes.

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A conteira é uma planta invasora dos Açores. Rui Pedro Paiva

Partindo deste pressuposto, um grupo de investigadores procurou perceber que utilidade poderia ter, afinal, a planta abundante em todas as ilhas do arquipélago. “Percebemos que tinha todas as capacidades necessárias para substituir o plástico descartável”, revela Telmo, apontando que as fibras provenientes do caule da conteira, utilizadas em polímeros biodegradáveis, têm a “maleabilidade necessária” e sobretudo uma grande “capacidade de resistência”.

O projecto teve início em 2014, com Roberto Amorim, empresário, que levou a ideia até à Universidade dos Açores. Contudo, só em 2018, com o financiamento da Associação Agrícola de São Miguel e do Fundo Regional para a Ciência e Tecnologia, conseguiram “aumentar a escala, ter outros equipamentos e avançar com mais testes e ensaios”. Pelo meio, em 2017, fundaram a Innovation Green Azores (IGA), uma entidade destinada à promoção das potencialidades da conteira.

Actualmente já existem protótipos de copos, pratos e tigelas. A aposta é mesmo nos materiais de descarte rápido. “Em geral, um copo permite duas ou três utilizações e um prato cerca de quatro ou cinco”. Depois disso, os materiais começam a ceder, numa deterioração que demora 45 a 90 dias num ambiente fechado. Prazos que são encurtados se os utensílios de conteira forem colocados na terra, à superfície: assim demoram 28 dias até à degradação total. E, no final, ainda servem como fertilizante. “O processo é complemente inócuo e ainda funciona como adubo natural, criando mais nutrientes para a terra”, confirma o investigador que faz da aplicação da fibra da conteira o estudo da sua tese de doutoramento na academia açoriana.

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Telmo Eleutério tem 27 anos e é doutorando na Universidade dos Açores. André Mendonça

Cuvetes para carne, o próximo passo

Além dos pratos, copos e tigelas, o grupo de investigadores também está a trabalhar num outro projecto que visa a criação de uma embalagem específica a partir da conteira: as cuvetes para congelados de carne. “Temos um outro projecto paralelo, a nível europeu, exclusivamente dedicado à criação de um biocompósito que será utilizado para criação das cuvetes. É uma área mais complexa, é preciso ter muito mais atenção às condições microbianas”, explica Telmo Eleutério, apontando a congelação, a necessidade de vácuo e o contacto directo com os alimentos durante longos períodos de tempo como os maiores desafios na criação deste recipiente.

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As folhas da conteira são utilizadas para enrolar o queijo fresco ou para servir de base na cozedura do pão; as crianças chupam a flor devido ao sabor adocicado.

Esta iniciativa, a partir do M-era.Net (um concurso de financiamento da União Europeia na área dos materiais), resultou num consórcio europeu composto também pelo Instituto de Nanomateriais e Nanotecnologias das Astúrias (CINN) e por duas empresas checas determinadas em substituir os plásticos por materiais biodegradáveis, a SPA 2000 e a SYNPO. “Só arrancámos em Maio, ainda estamos numa fase inicial”, acautela o investigador, não avançando com mais informações.

Mas a conteira parece não ter convencido apenas checos e asturianos. Além de São Miguel, o projecto já foi apresentado em Lisboa, Braga, Itália e Noruega e as reacções têm sido “muito interessantes”. “Mesmo não conhecendo a planta, as pessoas têm elogiado muito o projecto, que já deixou de ser apenas uma possibilidade teórica”, revela Telmo, avançando com o prazo de dois anos para entrada destes produtos no mercado. Mas, ressalva, “o tempo irá sempre depender dos apoios”.

Tendo em conta “as enormes potencialidades” da planta, poderá ter usos na criação de “óleos essenciais e aromas” e ainda utilizações “na indústria farmacêutica”. Tudo depende da forma como encaramos as potencialidades da natureza: “Podemos criar equilíbrio, valorizar os recursos endógenos e olhar de outra maneira para os recursos naturais que não são vistos com o potencial que podem vir a ter”, afirma Telmo Eleutério. Uma mudança de paradigma que o grupo de investigação a que pertence procura promover: “Temos de preservar a natureza o máximo possível, queremos valorizar a economia circular”, aponta. O objectivo passa por “tornar os Açores o mais auto-sustentáveis possível na vertente da sustentabilidade ambiental”.