Crónica

Uma ideia genial! Os jornais em papel!

Façamos uma inversão histórica. Imaginemos que, em vez de jornais online, a novidade do Verão são os jornais em papel.

Feche os olhos. Imagine uma inversão histórica. Está na praia. Areal repleto de corpos, todos muito juntinhos, já foi à água várias vezes, repetindo o ritual de estender a toalha, pôr o bronzeador e sacudir a areia. Apesar de os jornais online se terem tornado banais, não constituindo novidade, até lhe apetecia ler um, mas transportar o portátil para a praia não é prático — quem é que gosta de estar em pelota com um mono desses? —​ e o calor, para além dos reflexos do sol no visor, também não propiciam a melhor experiência de leitura com telemóvel.

Sente-se enfadado. Às tantas apetece-lhe uma bola de Berlim. O vendedor aproxima-se de si, mas o que lhe chama a atenção não é o bolo, mas outra coisa. “É uma nova invenção”, diz-lhe o homem. “Chama-se jornal em papel!” É leve, facilmente dobrável e transportável para qualquer lugar, pode-se sublinhar e recortar, respira o ar dos tempos retromodernistas, deixa um leve fluído orgânico nos dedos, e ainda por cima liberta um odor biológico, tudo isto por pouco mais de um euro. Quem não se renderia?

Compra logo meia dúzia. Um para si. E os restantes para impressionar os amigos com tão brilhante criação, coisa autêntica, real e experimental, num formato gráfico arrumado, em vez da desordem internauta onde as notícias têm de gritar para existir, podendo lê-lo onde quiser, do café à rua, e com múltiplas utilizações possíveis — inclusive essa, em alturas de aflição, que estão a pensar. Não é óptimo? Há muito que devia haver algo assim. Afinal para que servem as startup com business plan à mistura?

Mas não é apenas o formato. Os conteúdos também. Imagine — ou talvez não valha a pena, porque provavelmente já lá está – que está online. Distancie-se um pouco. Não é mais agressivo, estridente, polémico e pouco reflexivo no espaço digital? Por vezes esquecemo-nos que o cérebro é uma máquina lenta e o desejo de imitar engenhos velozes, como computadores, torna-se fonte de frustração em qualquer lado, quanto mais debaixo do chapéu-de-Sol! E já nem falo do excesso de informação com pouco conhecimento que circula e do facto de passarmos o tempo a procurar comunicar entre iguais, realimentando as nossas interpretações do que acontece. Lemos o nosso mural não para saber o que acontece, mas para saber se o que se diz sobre o que acontece corresponde à nossa visão. É como se tivéssemos desistido de exigir cabeças livres que pensam por si próprias. Damo-nos satisfeitos com a lógica de identificação grupal.

Os jornais em papel, nesse aspecto, são uma paz de alma. Não vivem na angústia de querer abranger a realidade como um todo. Assumem uma compreensão parcelar, como são aliás todas. Claro que têm defeitos, mas a nossa reacção a eles é lenta, mais de acordo com o futuro que desejamos —​ slow food, slow cities e, como é evidente, slow journalism.

Ironizo, claro. E daí, sei lá. O ponto é que passamos o tempo a contar histórias uns aos outros. Ou, como agora se diz, criamos narrativas. Produzi-las, por si só, sem base de sustentação, não muda a realidade. Mas nomeá-la de uma outra forma, a partir de novos ângulos, por vezes surpreende-nos e contribuiu para a transformação da mesma. Falo de jornais apenas como padrão, porque quando se vai para essa discussão já se leva o carimbo na testa de derrotado ou de nostálgico. É por isso que é um bom exemplo. É caso encerrado. Já nem nos questionamos.

E no entanto, a brincar a brincar, estou mesmo na praia, e há pouco passou por mim um homem que vendia bolas de Berlim e também trazia jornais. Comi a bola de Berlim e li o jornal. Discordei de umas coisas, reflecti sobre outras, aprendi outras tantas. Soube-me pela vida.