Opinião

Lutar pela ciência aberta

A indústria de publicação e divulgação do conhecimento académico está assente num modelo altamente lucrativo, mas perverso.

A sociedade encontra-se numa profunda transformação marcada pelas competências digitais, sendo esta uma excelente oportunidade para eliminar barreiras injustas, através da utilização de ferramentas que podem ajudar a resolver os enormes desafios com que nos debatemos. Um dos desígnios que temos de abraçar neste novo contexto é, precisamente, o acesso livre ao conhecimento que é produzido pelas instituições de ensino superior.

A ciência aberta importa – e muito. Enquanto o conhecimento se mantiver fechado entre quatro paredes, a sociedade sofre com isso. Os próprios decisores políticos não têm acesso facilitado aos resultados científicos mais recentes de forma a investirem, no imediato, em políticas eficazes e inovadoras. O mais revoltante é que os impostos dos contribuintes sustentam grande parte do conhecimento produzido e, ainda assim, este continua excessivamente inacessível.

A indústria de publicação e divulgação do conhecimento académico está assente num modelo altamente lucrativo, mas perverso: supondo que o dinheiro das contribuições dos portugueses será investido numa nova estrada para dar acessibilidade a uma determinada localidade isolada, vive-se o estranho paradigma de a empresa de construção cobrar taxas aos seus trabalhadores em vez de lhes dar um salário, de os responsáveis pela obra não receberem qualquer tipo de remuneração e de os contribuintes – caso queiram percorrer o novo acesso – terem de desembolsar uma determinada quantia. Este é um paralelismo fiel do atual estado da divulgação científica a nível mundial, que importa denunciar. Temos empresas cujo modelo de negócio se baseia nos impostos de todos nós, se servem do trabalho gratuito de investigadores altamente qualificados e que impõem preços exorbitantes para desbloquear o acesso ao conhecimento. Os cientistas não recebem pelos resultados que com tanto esforço e empenho conseguem produzir – na maior parte dos casos têm inclusivamente de pagar para os divulgarem –, os revisores dos trabalhos científicos (que atestam a qualidade da ciência) também não têm direito a qualquer tipo de vencimento e as instituições de ensino superior ainda têm de financiar subscrições tremendamente elevadas para terem acesso à investigação dos seus e de outros investigadores, acontecendo precisamente o mesmo a cidadãos e empresas que queiram estar a par dos avanços da ciência.

É contra este paradoxo que assistimos a uma verdadeira revolução. Ainda este mês uma universidade norte-americana geradora de uma quantidade assinalável de artigos científicos – a Universidade da Califórnia – decidiu abandonar a subscrição com uma das maiores editoras de jornais académicos. Também este ano um consórcio de instituições da Noruega decidiu cancelar as respetivas assinaturas. Na Alemanha, cerca de 700 bibliotecas e centros de investigação pagaram o acesso a jornais com o compromisso inegociável de que o trabalho dos seus investigadores teria de ser aberto à sociedade, sem custos acrescidos. E a própria Comissão Europeia defende que todos os resultados científicos financiados com fundos públicos devem ser disponibilizados gratuitamente e em plataformas digitais nos próximos anos.

A Universidade de Coimbra orgulha-se de fazer parte desta mudança através da divulgação online e gratuita de livros e artigos científicos no espaço lusófono, mas pretende agora contribuir para a construção de uma plataforma europeia de ciência aberta para investigadores, cidadãos e empresas de todo o continente: alcançámos um financiamento de 5,6 milhões de euros, no âmbito do Programa-Quadro Comunitário Horizonte 2020, para o desenvolvimento de um projeto digital europeu – o Projeto TRIPLE – que posiciona Portugal definitivamente na vanguarda da luta pela libertação do conhecimento científico e pelo acesso gratuito da sociedade aos resultados académicos das nossas universidades.

Não queremos o conhecimento aprisionado e não podemos ser meros espectadores perante o aumento incontrolável dos custos exigidos por monopólios de editoras científicas. Felizmente, está nas nossas mãos a possibilidade de deitar abaixo mais alguns muros, recorrendo à tecnologia, de forma a libertar e facilitar o progresso que a nossa sociedade ambiciona.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico