Chullage transformou-se em Prétu e revela a canção-manifesto Waters (poi koraji)

O rapper, uma das vozes cimeiras do hip hop português, divulgou esta sexta-feira o primeiro single do seu novo veículo criativo. Single que não é apenas som, mas também imagem, como confirma o vídeo divulgado em paralelo e que dá outra dimensão a versos “como mudaram os tempos, mudaram as leis/ de certa forma, ainda estou nessa roça

Frutos estranhos que lhes caem aos pés/ Peixes estranhos chegam com as marés”. Os frutos estranhos guiam-nos a Strange Fruit, a canção de Billie Holiday sobre o fruto morto, ensanguentado, dependurado nas árvores do sul dos Estados Unidos, corpos negros linchados pela turba sanguinária branca na América das primeiras décadas do século passado. Os “peixes estranhos” são os corpos de refugiados a forrar o Mediterrâneo, como antes corpos das vítimas do tráfico negreiro cruzaram e forraram o Atlântico. “Frutos estranhos que lhes caem aos pés/ Peixes estranhos chegam com as marés” são dois versos de Waters (poi koraji), canção-manifesto de Prétu, novo veículo criativo de Chullage. O single foi editado esta sexta-feira, mas a canção, que conta com a participação de Lowrasta, não vive sozinha.

Waters (po koraij) é som e imagem. É a canção que ouvimos e são também as imagens do vídeo que a acompanha e que aqui revelamos. Não é um regresso porque ele nunca foi embora. Não é um renascimento porque aquilo que era é aquilo que continua a ser. Nuno Santos, lisboeta nascido em 1977 em família cabo-verdiana, é aquele que conhecemos como Chullage, rapper fundamental no cenário português, rapper da palavra denunciadora das desigualdades sociais, actuante perante o flagelo do racismo, como ouvimos em álbuns como Rapensar e Rapressão. Vemo-lo agora a confluir em Prétu a sua actividade múltipla – músico, produtor, performer de spoken word, sociólogo, artista visual colaborador regular de Vhils, dramaturgo co-fundador da companhia Peles Negras Máscaras Negras – Teatro do Escurecimento. “É uma conversa consigo e com a sua comunidade, onde se propõe matar o preto ou a preta que a prática colonial e racista construiu dentro de nós, para que daí, da reafricanização do espírito, possa nascer uma nova entidade prétu/préta. Uma entidade do outro futuro possível”, lemos num dos textos que acompanham o lançamento do novo single, cujo vídeo, realizado pelo rapper e por Miguel Almeida, é uma co-produção da Peles Negras Máscaras Negras com a Hangar Music.

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O som é novo, feito de memórias que são ainda matéria do presente (samples dos músicos cabo-verdianos Princezito e Vadú, alusões a Famintos, Romance de um Povo, que o também cabo-verdiano Luís Romano publicou em 1962). O som é novo, integrando o seu rap em ambiente electrónico denso, num negrume que remete para algum do grime inglês. O cartaz Black Lives Matter que vemos em determinado momento no vídeo é marca absolutamente contemporânea e sentem-se como urgentes, no momento em que se discute em Portugal a questão racista, provavelmente como nunca antes, versos como os de Lowrasta: “morto ou vivo, se não sou lucrativo, não sou apelativo, motivo de troça/ mudaram os tempos, mudaram as leis/ de certa forma, ainda estou nessa roça” (acompanhados pelas imagens que cruzam dramatização de cenários opressivos com retratos de vários trabalhadores, da empregada de limpeza ao futebolista).

Agora que nos apresenta Prétu, Chullage não mudou. Toca nas mesmas teclas que em que tocava quando se estreou em 2001 com Rapresálias. Mudou o contexto, mudou a visibilidade do diálogo e da discussão, que pode ser concentrada (quer como ponto de partida, quer como ponto de chegada) no sample de Bakandeza, de Princezito, que ouvimos em Waters (poi koraji): “um omi branku mata um ómi prétu so pamodi omi prétu era pretu mê”, ou seja, traduzamos do crioulo, “um homem branco matou um negro só porque esse homem era negro”).

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O single e vídeo através do qual se anuncia, depois de algumas apresentações em palco, será sucedido de novas edições no mesmo formato, não estando ainda definido se estes darão posteriormente origem ao lançamento de um álbum ou EP.

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