Telma Monteiro
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Telma Monteiro Reuters/KAI PFAFFENBACH

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Desporto para mulheres

Como pode uma mulher sentir-se motivada e valorizada se na remuneração, no desempenho e no reconhecimento de algumas modalidades desportivas fica a perder?

Telma Monteiro, Patrícia Mamona, Billie Jean, Jéssica Augusto, Serena Williams e Kathrine Switzer: estes são os nomes de algumas atletas nacionais e internacionais que ganharam destaque na sua modalidade desportiva. Referências que nos fazem sentir um orgulho imensurável. Mas quão duro terá sido o percurso? Quão desafiante? Quão (in)justo?

Falar de Kathrine Switzer, por exemplo, é não ter mãos a medir: a primeira mulher a participar na Maratona de Boston, uma prova só para homens, em 1967. Serena Williams? A tenista impulsiva, sempre com sede de mais — possivelmente uma das seguidoras do legado de Billie Jean. Sabemos bem que ser mulher foi — e ainda é — um entrave para algumas realizações.

No desporto não é diferente. Há rótulos, actividades específicas para cada género, estereótipos de corpo que têm de ser seguidos. Mulheres com músculos? Pouco feminino. Mulheres que arrancam na partida só com homens? É uma vergonha. Mulheres que fazem provas OCR (Obstacle Course Racing)? Inconscientes. O mesmo poderá aplicar-se aos homens que gostam de ioga, pilates ou zumba. 

Preconceito não combate preconceito. Desporto é desporto. É união. É para todos. Os estereótipos sexistas têm uma importância descomunal no desporto e continuam a anular o papel da mulher no mesmo. O problema? O problema é que até podemos justificar algumas acções como sendo retrógradas e passadas, mas a verdade é que, em pleno ano de 2019, mesmo as gerações mais novas continuam com este tipo de preconceitos enraizados e formatados.

Como pode uma mulher sentir-se motivada e valorizada se na remuneração, no desempenho e no reconhecimento de algumas modalidades fica a perder? 

Vejamos os factos: a selecção alemã de futebol masculino ganhou 338 milhões de euros por conquistar o Mundial de 2014. Um ano mais tarde, os EUA conquistaram o Mundial feminino. O prémio foi de 14,1 milhões de euros. Alex Morgan é a jogadora de futebol norte-americana mais bem paga do mundo, com um ganho anual de 2,8 milhões de euros, somados contratos e patrocínios. Cristiano Ronaldo foi o atleta que mais recebeu em 2016, com rendimento de 83,1 milhões de euros. Sem mencionar a abismal diferença entre Roger Federer — 64 milhões de euros — e Serena Williams — 27,3 milhões de euros. São apenas números. Mas números, efectivamente, ditados pelo género.

Não é uma questão de modernidade, mas sim de mentalidade. A mesma que nos educa. Voltando a mencionar Kathrine Switzer, que várias vezes refere o papel preponderante do pai na sua carreira. “Tu não queres ser cheerleader. Queres que gritem por ti. A vida é participar, não assistir.” Foram estas as palavras do pai de Switzer, no primeiro dia da atleta na escola secundário. Ora, este homem soube moldar bem o ponto forte da filha. Sem medo. Sem vergonha. Por isso, não falem em modernidades, evolução dos tempos. O papel deste pai fez toda a diferença, por defender aquilo em que realmente acreditava. Vivemos ainda num mundo onde ser homem tem as suas vantagens. Mas não nos agarremos só a esta premissa. Convém salientar que o papel da mulher para com outras mulheres é crucial para o desenvolvimento deste processo de conquista. As mulheres também precisam de se credibilizar mais — e entre si.

Tudo o que desafia, que é diferente e ambicioso, assusta. Assusta-nos. Mas acredito que, na maioria dos casos, as pessoas defendam certos preconceitos porque é mais fácil. E porque lhes falta a coragem necessária para arriscar. Ao deixarmos na penumbra as nossas vontades — por sermos mulheres ou não —, o processo de conquista de todos nós morre mais um bocadinho. Por isso “faz-te homem” ou “faz-te mulher”, mas vai à luta.