Payva D’Ouro evoca a relação de Castelo de Paiva com os rios da região

Espectáculo multidisciplinar com direcção artística de António Capelo está inserido na programação da Bienal da Cultura de Castelo de Paiva. Payva D’Ouro junta cerca de 500 intervenientes a actuar esta sexta-feira, às 22 horas, no Largo do Conde.

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Teatro do Bolhão

As ruas, varandas, fachadas e janelas da praça central de Castelo de Paiva vão ser o palco do espectáculo Payva D’Ouro, parte da agenda da segunda Bienal da Cultura do município. O evento “teatral e multidisciplinar” leva esta sexta-feira ao Largo do Conde, às 22 horas, a celebração das “tradições, terras e gentes” e das suas ligações aos rios da região.

O espectáculo conta com a direcção do paivense António Capelo e é uma criação do Teatro do Bolhão com a comunidade de Castelo de Paiva. Depois dos quase 300 participantes, entre actores e figurantes, que participaram no Todos a Payva, na primeira Bienal da Cultura, em 2017, Payva D’Ouro vai contar com cerca de 500 intervenientes: profissionais do Teatro do Bolhão, alunos da ACE Escola de Artes e membros da comunidade de Castelo de Paiva - indivíduos, associações e outros grupos da terra, com destaque para a orquestra e o coro da Academia de Música.

As “tradições seculares da região de Paiva” influenciadas pela proximidade aos rios como o Paiva, o Tâmega ou o Arda, além do Douro, foram o motivo para a “evocação das relações que as populações tinham com os rios”, explica António Capelo por telefone ao PÚBLICO. O conjunto multidisciplinar de “artistas de circo, actores, comunidade local e músicos” vai trabalhar à volta de “uma série de núcleos” que tinham relações com a água.

Vão ser lembrados “pescadores, lavadeiras, militares e mineiros” num espectáculo que evoca memórias anteriores ao “boom do turismo” e à “criação da barragem”, uma altura em que havia três cais no concelho para o transporte de hortícolas, vinhos e outros produtos para o Porto. Em Payva D’Ouro, o cais do rio, “onde tudo chega e tudo parte”, vai ser o terreiro da igreja, centro da maior parte da acção dramática, “onde a vida se anima e a memória se ergue à altura da vela que evocará, em imagens, o tempo que já foi de outros, dos outros que foram a família e continuam a ser a comunidade.”

A representação teatral vai ser feita com base nas memórias das próprias gentes da terra sobre esses tempos, sobretudo nas da infância de António Capelo, nascido junto ao Douro: “Há coisas de que me lembro e que se calhar nunca aconteceram porque eu efabulei na minha cabeça, mas não deixam de ser memórias que eu tenho a partir dos meus próprios sentidos, do que vi, saboreei e senti”.

Lavar o passado com as águas dos rios

Castelo de Paiva tem sido palco de tragédias que ainda assombram o nome do município. Para António Capelo, momentos como o espectáculo são a oportunidade de dar voz ao município: “Castelo de Paiva não são só desgraças.” O director artístico da ACE – Academia Contemporânea de Espectáculo/ Teatro do Bolhão é muito activo na promoção da região que o viu nascer, uma dedicação que levou a Câmara Municipal de Castelo de Paiva a distinguir o actor, encenador e professor de teatro com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, na abertura da segunda Bienal da Cultura, no domingo, 14 de Julho.

O espectáculo é mais um dos esforços para mostrar que a região tem muito mais para oferecer. António Capelo afirma muitas vezes que o povo paivense “é um povo que vive anonimamente e sofre publicamente”, mas acrescenta que há uma outra face que merece ser valorizada: “consegue divertir-se e partilhar essa diversão. É um povo muito hospitaleiro”.

A prova está na forte participação de associações e pessoas da região: além da entrada dos quase 200 artistas da orquestra e do coro da Academia de Música, o Payva D’Ouro tem a fanfarra dos bombeiros, “membros de ranchos folclóricos”, actores de uma companhia de teatro amador, associações desportivas, ex-mineiros e até ex-militares para homenagear as vítimas paivenses na Guerra Colonial. Uma “panaceia” de pessoas a que “qualquer um pode vir desaguar”.

Texto editado por Ana Fernandes