Jo Jo/Unsplash
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Megafone

E nunca mais voltámos a um festival de Verão

Dada a nossa fraca estatura, um metro e sessenta de portugalidade, assistir a um concerto é sempre um verdadeiro jogo de xadrez onde o nosso posicionamento estratégico é de uma liminar importância se queremos render o dinheiro pago.

Não sei se é da idade. Não, não é da idade, antes pelo contrário, mas tanto eu como a Ana temos uma paixão por música. Estamos sempre à procura de novas sonoridades, novos artistas, os novos lançamentos de músicos já conhecidos e, ano após ano, procuramos, ingenuamente, assistir a concertos dos nossos artistas favoritos.

Inevitavelmente, seja pela popularidade, seja pelos bilhetes que esgotam rapidamente nas salas de concerto, damos connosco num festival de Verão.

Ingenuamente, repito, compramos os bilhetes convencidos desta estapafúrdia ideia de poder ver, e ouvir, um concerto ao vivo.
A organização dos concertos, no entanto, não partilha da mesma ideia. Isto apesar dos 150 euros pagos por dois bilhetes. Não, para a organização 150 euros não chegam. Não chegam para nos chegarmos ao palco, ou não estivesse o mesmo delimitado por um semicírculo com um raio de 50 metros onde só entra quem paga mais 100 euros por bilhete. 

Ora, como 150 euros é dinheiro e o dinheiro custa a ganhar, recusamo-nos a pagar mais 200 euros. Nós e muita gente. Resultado: o semicírculo está às moscas enquanto 50 mil pessoas se acotovelam contra a vedação na vã tentativa de ver o concerto das suas vidas.

Mentira, 50 mil pessoas acotovelam-se contra a vedação pela óbvia falta de espaço, mas só eu e a Ana, no princípio uns cinco metros atrás da vedação, é que queremos ver o quanto se passa no palco. Ao nosso redor, entre nuvens de haxixe, muita bebida, pessoas num rodopio constante a entrar e a sair para ir comprar mais bebidas, mais comida, para ir à casa de banho ou para se colocarem à nossa frente enquanto falam com o vizinho do lado, enquanto falam todos uns com os outros entre gargalhadas, gritos e selfies, ninguém está verdadeiramente interessado no concerto e estão todos interessados em si mesmos, literalmente marimbando-se para quem, frustrantemente, veio para ouvir música.

E sim, o mundo é que está certo e nós estamos uns verdadeiros “cotas”, uns caretas com mais de 40 anos perfeitamente sóbrios no meio de um recinto onde o propósito egoísta dos festivaleiros consiste em fazer uma festa em cada metro quadrado de relva, uma festa bem regada e bem fumada onde a cerveja chove para mal de quem não trouxe um guarda-chuva. Sem esquecer os empurrões, os totós da rapariga do lado constantemente na nossa cara, os pés pisados e um vómito ocasional, pois claro, a cereja no topo do bolo.

Dada a nossa fraca estatura, um metro e sessenta de portugalidade, assistir a um concerto é sempre um verdadeiro jogo de xadrez onde o nosso posicionamento estratégico é de uma liminar importância se queremos render o dinheiro pago. E se no princípio dos concertos estávamos cinco metros atrás da vedação, com o passar do tempo e dos ébrios lá nos chegámos à frente. Mesmo a tempo dos cabeças de cartaz, mesmo à nossa frente, apesar dos 50 metros de distância. Mesmo a tempo de um mastodonte e respectiva esposa encostarem os 60 anos contra as grades do lado de dentro do semicírculo, o qual está vazio, como se não tivessem mais lugar para onde ir, num misto de ignorância e perfídia, tapando por completo o ângulo de visão para o palco, deixando-nos a assistir a uma nuca careca durante as duas horas de concerto mais as fotografias e vídeos, apesar dos braços esticados, com uma cabeça calva sempre, sempre, no meio das imagens.

A parte gaga é que os concertos foram mesmo bons. Mas não os vimos. Não bebemos, não fumámos, não gritámos, não nos pusemos à frente de ninguém, não fizemos xixi nos pés do vizinho do lado, estivemos quatro horas em pé, sem comer, e no fim ainda tivemos de fazer cinco quilómetros a pé por já não haver transporte directo para casa. 

Conclusão, e volto a repetir, nós é que estamos mal e a malta nova, com 20 anos a menos, é que tem razão: ninguém, mas mesmo ninguém, vai a um festival para ouvir música, a música é o que menos interessa e a malta quer é desbundar.

Mas como não queremos deixar de ir a concertos, mesmo em festivais de Verão, já começámos a poupar e para o ano vamos gastar os tais 300 euros para nos juntarmos ao grupo de 500 pessoas a acotovelarem-se ao pé do palco entre cerveja, nuvens de haxixe, mais cabelos na cara e uma girafa à nossa frente enquanto alguém vomita ao lado. Mal posso esperar, pode ser que desta vez consiga ver um bocadinho do concerto.