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Em Lisboa e Braga, os mayors das bicicletas querem pôr a cidade a pedalar

Ana Pereira e Mário Meireles são os mayors da bicicleta portugueses. Uma em Lisboa, outro em Braga, trabalham para influenciar a comunidade a utilizar a bicicleta como meio de transporte principal. Fazem parte de uma lista de 41 mayors espalhados por todo o mundo.

“Porque não?”, pensou Ana Pereira quando recebeu um e-mail da Bycs, associação holandesa que quer acelerar a implementação das bicicletas nas cidades. Afinal, a ligação da lisboeta de 38 anos à bicicleta é “íntima e extensa”: desde 2005 que a utiliza de forma “consciente e consistente” e é co-fundadora da Mubi (Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicleta) e da Casa da Bicicultura, uma cooperativa cujo objectivo é a “promoção e educação para a mobilidade e cidades sustentáveis”. Candidatou-se, então, ao Bicycle Mayor & Leaders Program.

O currículo na área do “cicloactivismo” era extenso e o plano de trabalho convenceu os holandeses que, em Janeiro, deram a Ana o título de mayor da bicicleta em Lisboa. A primeira em Portugal (mas não a única), que se juntou a uma lista de 40 mayors espalhados por todo o mundo, numa lista de perfis variados, onde a mayor mais nova, a de Amesterdão, tem oito anos. Chama-se Lotta Crok

O mayor tem um papel catalisador. Deve influenciar a comunidade para a utilização da bicicleta e alertar para os benefícios da mobilidade suave, bem como promover acções que incentivem as pessoas a pedalar. Os mayors das diferentes cidades funcionam entre si como uma rede, partilhando ideias, projectos e acções através de uma plataforma digital, para estarem a par do que está a ser feito pelos colegas. Para ser mayor é preciso ter um plano de actividades que ajude a contornar (e, se possível, a acabar com) os obstáculos da cidade.

No caso de Ana, os planos já estavam traçados. “Tem muito a ver com o que fazemos na Casa da Bicicultura”, começa por explicar. Há três questões que consideramos ser um impedimento à adopção da bicicleta em Lisboa: o facto de as pessoas não terem referências de familiares directos que utilizem a bicicleta — ao contrário do que acontece com o carro — e, por isso, não perceberem que a sua utilização é normal; o desconhecimento de soluções ou estratégias — como transportar uma criança, o que fazer quando chove, como prender a bicicleta; e a questão da falta de acesso à bicicleta e de sítio para a estacionar”, enumera.

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Ana Pereira DR

Em Lisboa, há também obstáculos físicos como “os sentidos únicos” — que fazem sentido para a “reorganização do tráfego automóvel”, mas não para as bicicletas —, a “falta de pequenos atalhos ou rampas” — determinantes na “permeabilidade da cidade à bicicleta” — e a “falta de estacionamento”, que acabam por dissuadir os potenciais utilizadores. O objectivo da mayor é “reduzir as barreiras culturais, financeiras e logísticas ao uso da bicicleta” e utilizar uma estratégia de crowdsourcing para “reunir dados que possam servir para posteriormente fazer lobby pelas políticas na área da mobilidade”.

Para isso, está a criar uma plataforma para os ciclistas “identificarem as ruas que querem usar bidireccionalmente” e que, posteriormente, será “passada à câmara municipal ou autoridades relevantes, de forma a pressionar para que seja feita alguma mudança”, explica Ana. E mais ainda: a mayor de Lisboa, juntamente com a Casa da Bicicultura, tem feito algumas actividades junto da comunidade. “Desde Fevereiro, todas as primeiras sextas-feiras de cada mês juntamos as pessoas e abordamos um tema. Convidamos pessoas para falar, organizamos um debate ou passamos um documentário sobre algum tema. E fazemos também passeios nocturnos.”

Recentemente, o tema abordado num dos encontros foi “o espaço das crianças nas cidades” e “a segurança que esta lhes oferece”. Um tema que também preocupa Mário Meireles, mayor de Braga desde Junho. “Dizemos muitas vezes que é preciso apostar nas crianças para haver uma mudança de hábitos”, mas para isso é preciso dar-lhes condições para que sejam agentes dessa mudança. “Neste momento não podemos incentivar as crianças a irem para o meio de uma estrutura que claramente não é segura”, aponta.

Mário Meireles nasceu na Suíça, onde era “normal andar de bicicleta”. Quando, aos sete anos, chegou a Portugal, tentou manter o hábito — mas cedo desistiu, graças a “um susto”, e só voltou a pedalar quando entrou para a universidade.

Com um mestrado em Engenharia Urbana, “dedicado à promoção da bicicleta” e actualmente a fazer doutoramento “na área da sustentabilidade do ambiente, em que o foco principal é a bicicleta”, Mário Meireles é também presidente da associação Braga Ciclável desde 2016. Antes de ser mayor, já levava algumas acções a cabo, no âmbito da associação. “O autor do blogue que deu origem à Braga Ciclável fotografou bicicletas presas a postes e árvores e juntos mapeamos pontos na cidade onde havia necessidade de estacionamento”, conta.

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Mário Meireles DR

Além de assinalarem os bicicletários (estacionamento para bicicletas), conversaram com utilizadores regulares de bicicleta para perceber “os percursos que faziam” e, com essa informação, traçaram “as linhas de desejo”, que poderiam ser determinantes numa espécie de “reformulação da infra-estrutura” existente em Braga.

“Neste momento, temos uma cidade centrada no automóvel — que fazia sentido na segunda metade do século XX”, mas que agora pode não fazer tanto, refere o mayor bracarense. Mário destaca cidades europeias — e até Lisboa — que estão a dar “passos firmes” na adopção da bicicleta como transporte prioritário, transformando o carro em “alternativa”.

Em Braga, falta “sensibilizar os decisores para a necessidade da criação de uma rede de infra-estruturas” que permita deslocações em segurança. O que pode não implicar um “grande financiamento”: “Pegar nas estradas que temos e readaptá-las, redesenhá-las, repintá-las, pode ser a solução”, acredita. E, à semelhança do que acontece em Lisboa, Mário defende que é preciso criar uma “cultura de bicicleta”.

“Há uma série de mitos. Ora de que em Braga chove muito, ou que tem muitas subidas... E de que não há cultura de bicicleta. Há países onde chove muito mais e as pessoas pedalam na mesma”, atira. Para desmistificar estas ideias, tem tentado envolver a população através de algumas actividades, como passeios pela cidade, em que tenta dar algumas dicas para “mudar o chip” dos mais cépticos, ou encorajar os que querem deslocar-se de bicicleta, mas têm dúvidas sobre como o fazer. “Às vezes, as pessoas vêm-me perguntar como faço isto ou aquilo quando ando de bicicleta. E, ao fim de algum tempo, acabo por vê-las passar por mim a pedalar. E isso é sempre bom.”