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A tua cidade é amiga das bicicletas? O Bike Friendly Index diz-te

Investigadores da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa classificaram o nível de adesão dos portugueses ao uso da bicicleta e o balanço não foi positivo.

David Vale e António Pedro Figueiredo pertencem ao Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design (CIAUD) da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa e passaram os últimos meses a avaliar o quão amigos dos velocípedes são os municípios portugueses. Para efectuarem os seus cálculos, os investigadores consideraram variáveis tão distintas como o declive das zonas analisadas, o ambiente construído, o compromisso político demonstrado pelos governos locais e as infra-estruturas existentes.

O trabalho resultou num índice — o Bike Friendly Index (BFI) — que mede o grau de aptidão dos concelhos portugueses para o uso de bicicletas. Nos dados agora divulgados, relativos a 2018, sobressaem na ordenação por distrito as posições de Porto e Lisboa, classificados com um 4 e um 5, respectivamente, numa escala que vai de 0 a 10. No entanto, o balanço global do país está longe de ser positivo, já que o valor nacional é de apenas 2,3.

Como se explicam, então, resultados tão aquém num país que, em 2017, foi o segundo maior produtor europeu de bicicletas? Uma das justificações possíveis, aponta o investigador, prende-se com a desvalorização da bicicleta enquanto meio de transporte, o que é, simultaneamente, uma causa e uma consequência do pouco investimento público dedicado a este meio de deslocação. A associação do automóvel próprio a um certo estatuto social e económico motivou “investimentos avultados na rede rodoviária”, o que se traduziu, na opinião de David Vale, num “esquecimento relativamente a outros modos de transporte, tais como a bicicleta e até o próprio comboio”.

A desatenção não se circunscreve à questão das verbas, já que o facto de Portugal ser o segundo maior produtor e exportador europeu de velocípedes também não é, segundo o mesmo investigador, motivo de destaque ou valorização, pelo menos ao nível do que é feito com a AutoEuropa, por parte do poder político. “Há vários acessórios por exemplo que são feitos em Portugal — cadeirinhas de bebé para bicicletas, guarda-lamas, bagageiras, etc. — que são quase exclusivamente para exportação. Temos também o caso do sistema de partilha de bicicletas de Paris, o qual tem metade da frota também produzida em Portugal.”

Embora “haja ainda muito por fazer”, David destaca o “compromisso político evidente” que existe em alguns distritos, nomeadamente Lisboa, e que se reflecte no resultado alcançado pela capital no BFI. De facto, a atenção que está a começar a ser dada à mobilidade urbana sustentável foi um dos factores que motivou a dupla de investigadores a iniciar o projecto, para que “a população e as forças políticas” tenham acesso a dados credíveis no que diz respeito à mobilidade. A nível da consciencialização, o investigador do CIAUD considera que esta “já existe” e que o futuro passa mesmo por “transpor as palavras e intenções para acções concretas”.

Murtosa leva a camisola amarela

No que diz respeito a concelhos, há localidades com resultados prósperos, como é o caso de Vagos, Mira, Golegã, Estarreja e Ílhavo, cujas taxas de utilização se situam nos 5%. Ainda assim, é Murtosa, em Aveiro, que veste a camisola amarela com um índice de 6,1. Este município conta, de acordo com os censos de 2011, com 10 585 habitantes e dispõe de 16,3 quilómetros de ciclovias. Segundo a autarquia, na voz do vice-presidente, Januário Cunha, este resultado deve-se a uma conjugação de três factores favoráveis: o território não tem muitos altos e baixos — “é o concelho mais plano do país"; a distância entre os aglomerados urbanos “é pequena"; e há um “longo historial” de utilização de bicicletas.

Januário Cunha converge com David Vale no que diz respeito à existência de uma ideia pré-concebida, e dominante nos anos 1980 e 1990, de que só pedalava quem não auferia rendimentos suficientes para ter carro próprio. Foi precisamente para contrariar este pensamento que a autarquia iniciou, em 2007, um projecto inovador com vista à promoção do uso da bicicleta, o Murtosa Ciclável, numa altura que “ainda não se considerava a bicicleta uma alternativa viável”. A iniciativa, realizada ao abrigo do Projecto Mobilidade Sustentável promovido pela Agência Portuguesa do Ambiente, contemplava dois eixos: a afirmação do velocípede como meio de transporte diário para a população do concelho e a aposta neste meio de locomoção para os turistas que visitam Murtosa, de forma a facilitar a descoberta do património cultural do concelho.

Na opinião de Januário Cunha, a aposta na bicicleta, para além de originar consequências “ambientais e físicas positivas”, pode também trazer benefícios menos óbvios, nomeadamente ao nível das “relações pessoais, visto que são promovidas mais situações de convívio e interacção social”, e da “percepção que as pessoas têm da cidade em que vivem ou que estão a visitar”, devido à nova interpretação que fazem do espaço urbano que as envolve. Para isto, considera que a vontade política é “fundamental”.

Para o futuro, o autarca de Murtosa define como prioridades a “extensão da rede de ciclovias do concelho”, sempre em concertação com os municípios vizinhos; “as melhorias nas condições de segurança rodoviária” oferecidas a todos aqueles que pedalam (com ênfase nas novas gerações que já se deslocam para as escolas de bicicleta, numa clara antecipação da medida do Governo que pretende incluir esta prática nos currículos escolares); e o aumento do número de cidadãos a optar pela bicicleta nas suas deslocações diárias.