Antigos Estaleiros de São Jacinto a caminho de renascer como complexo habitacional e turístico

Líder da autarquia diz não ter conhecimento do projecto em questão. Presidente da junta de freguesia olha “com bons olhos” para a proposta de investimento.

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asm ADRIANO MIRANDA

O projecto ainda está a ser ultimado, mas, se tudo correr como previsto, pode dar entrada nos serviços da Câmara de Aveiro ainda este mês. A estimativa é avançada pelo administrador da Metalúrgica123, empresa que está a desenhar um complexo habitacional e turístico para os terrenos dos antigos Estaleiros de São Jacinto. No seu site, a empresa do Porto até já apresenta uma imagem virtual com alguns edifícios e uma pequena marina, mas “esse desenho ainda não é definitivo”, assegurou Joaquim Cruz, CEO da Metalúrgica123. O líder da autarquia, Ribau Esteves, afirma apenas que “a câmara ainda não tem conhecimento formal ou informal deste projecto”. Já o presidente da Junta de Freguesia de São Jacinto, António Aguiar, diz “olhar com bons olhos” para um investimento turístico na freguesia.

A esta altura, a empresa do Porto ainda tem três hipóteses em cima da mesa. “Estamos a analisar se avançamos nós com o projecto e a construção, ou se optamos por arranjar parceiros. Outra possibilidade passa por vender os terrenos com projecto aprovado”, explicou ao PÚBLICO Joaquim Cruz. O terreno em questão está plantado em frente à ria e tem uma área de 40.000 metros quadrados.

A notícia referente ao projecto Metalúrgica123 foi avançada, esta semana, pelo Notícias de Aveiro, e no site da empresa o investimento aparece referenciado com o ano de 2016. A ilustrá-lo surge, então, um desenho no qual salta à vista um prédio alto, sobressaindo entre os edifícios envolventes e a Reserva Natural das Dunas de São Jacinto vizinha. “Esse foi o draft inicial. Na última versão do projecto, já foi reduzida a cércea do hotel”, assegurou Joaquim Cruz, dando nota da aposta em harmonizar o projecto com a paisagem.

Para António Aguiar não restam dúvidas de que o futuro da freguesia que está separada do resto do concelho pela ria tem de passar pelo turismo, razão pela qual vai demonstrando algum entusiasmo ante a possibilidade de ali ser construído um complexo habitacional e turístico. “É impossível São Jacinto voltar a ser o que foi ao nível da indústria. O caminho tem de ser através do turismo”, declarou, apesar de colocar reticiências ao projecto inicial.

Por seu lado, em comunicado, o Bloco de Esquerda disse que irá pedir esclarecimentos à câmara, mostrando-se “preocupado que aquela zona seja usada para um projecto imobiliário que privilegie a especulação”.

Com cerca de 1200 habitantes, São Jacinto dispõe da única praia do município de Aveiro, sendo particularmente conhecida pelo seu extenso areal e pelas condições de excelência para a prática de surf. Não obstante a sua população “triplicar durante a época de veraneio”, é, ainda assim, uma das praias mais tranquilas da região. Situada no extremo de uma península, São Jacinto tem usufruído de todas as vantagens e também das desvantagens que daí advêm. Ainda que seja servida por um ferry boat, a distância por terra até à sede do concelho é de cerca de 50 quilómetros.

“Só temos pequenas unidades de alojamento local e alguns restaurantes que, apesar de serem óptimos, não são suficientes para dar resposta a mais turistas”, argumenta o presidente da junta de freguesia, em defesa da construção de um empreendimento turístico naquela praia.

Nascidos na década de 1940, os Estaleiros de São Jacinto chegaram a empregar entre 500 a 600 trabalhadores. Foi dali que saíram grandes navios de pesca longínqua, como o Pascoal Atlântico e o Santa Isabel, bem como várias encomendas que chegavam do estrangeiro. Uma delas, talvez a que deu mais que falar, chegou da Noruega: foi em São Jacinto que foi concretizado o projecto do Geobay, o primeiro navio geofísico construído em Portugal.

Por volta do ano 2000, os Estaleiros de São Jacinto entraram num caminho sem retorno, enfrentando uma grave crise financeira que levou a que muitos funcionários fossem saindo. A falência  foi decretada em 2006, deixando em ruínas os edifícios situados à beira-ria.