Polícia detido com 125 quilos de haxixe usava folgas sindicais para ir buscar droga a Espanha

Bernardino Mota partira do Algarve com dois cúmplices no domingo à noite. Os quatro detidos serão presentes a tribunal nesta terça-feira. Sindicato diz que é uma questão do foro pessoal, mas vai expulsá-lo.

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fabio augusto

Um agente da PSP da esquadra de Gondomar foi detido neste domingo à noite em simultâneo com dois dos seus três cúmplices quando pararam numa bomba de gasolina do Montijo: na bagageira de um Audi A6 traziam 124,5 quilos de haxixe. Apenas a chapeleira cobria os pacotes que terão ido buscar a Espanha. A carga obrigava a que os bancos de trás tivessem sido puxados para a frente e por isso o agente Bernardino Mota seguia atrás do Audi, num Volkswagen Golf.

A detenção dos três homens em flagrante delito – o agente da PSP, de 43 anos, e mais dois de 34 e 46 anos - foi feita pelas 23h35, na estação de serviço da margem sul do Tejo. Traziam na bagageira 249 mil doses de haxixe. E já nesta segunda-feira, no Porto, foi detido um quarto elemento (de 40 anos) e constituído arguido um quinto homem, de 37 anos. Este último foi alvo de buscas porque já estava indiciado por tráfico, mas não tinha qualquer droga com ele. Serão presentes nesta terça-feira no tribunal de Sintra, onde começou o processo.

A viagem feita num fim-de-semana nem exigiu que desta vez, ao contrário do que seria frequente, Bernardino Mota, delegado sindical da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia da PSP (ASPP/PSP), juntasse créditos sindicais às suas folgas para fazer as viagens a Espanha, onde se abasteceria de droga que, suspeita-se, provinha de Marrocos, disse ao PÚBLICO fonte policial. O grupo era um dos grandes fornecedores de haxixe da região Norte.

Bernardino Mota é agente principal na esquadra de Gondomar e já tinha prestado serviço em Valbom, ambas pertencentes ao Comando Metropolitano do Porto. De acordo com o Boletim do Trabalho e do Emprego, a publicação do Ministério do Trabalho onde é divulgada, entre outra informação, a relativa à contratação colectiva e aos sindicatos, Mota foi eleito secretário da direcção da ASPP a 23 de Maio do ano passado para um mandato de três anos.

Questionada pelo PÚBLICO, a direcção da ASPP, o maior sindicato da PSP, garantiu ter confirmado com os serviços administrativos que Bernardino Mota não estava de dispensa sindical nesta segunda-feira. Tendo em conta que foi apanhado em flagrante delito, o sindicato decidiu abrir já um processo de expulsão, embora a direcção faça questão de realçar que este caso é “uma questão do foro pessoal do agente e não é relevante do ponto de vista sindical”. Ainda assim “só o facto de haver uma investigação sobre ele já é matéria suficiente para não estar no nosso sindicato”, acrescenta fonte da direcção, que enaltece o “bom trabalho que o departamento de investigação criminal tem desenvolvido para arrumar a casa e combater este tipo de situação que existe na PSP”.

A investigação, dirigida pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal, durava há 16 meses. Na operação foram envolvidos 45 polícias, o Departamento de Investigação Criminal, os comandos metropolitanos de Lisboa e do Porto, o comando distrital de Faro, o Grupo de Operações Especiais. A PSP contou ainda com a colaboração do Corpo Nacional de Polícia espanhol, uma vez que o grupo se deslocava a Espanha para recolher a droga.

Envolvido no tráfico de drogas há anos

A ideia de que Bernardino Mota estaria envolvido no tráfico de droga há vários anos não era segredo na região do Porto. Do grupo, apenas este tinha profissão, e o mais velho, um homem de 46 anos, tinha já cadastro por tráfico de droga. Para além dos 120 quilos de droga apreendidos no Audi, nas buscas a casa do agente da PSP foram encontradas mais 500 gramas, que estavam já separadas em mil doses.

Foram feitas seis buscas domiciliárias e duas não domiciliárias (a garagens e arrecadações), tendo a PSP apreendido quatro viaturas – as duas no Montijo, a do último detido, e um Mercedes AMG no valor de 65 mil euros que Bernardino Mota usava no dia-a-dia e que tinha registado em seu nome há pouco tempo - o que motivava desconfiança tendo em conta o seu salário -, 15 mil euros em dinheiro e outros artigos usados para o tráfico (equipamento de pesagem e corte).