Taiwan aproveita protestos em Hong Kong para criticar política de Pequim

Taipé diz que a política “um país, dois sistemas” não é mais que uma “mentira” de Pequim e apelou à “comunidade internacional que apoie a luta do povo pela liberdade e por eleições democráticas”

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Os manifestantes exigem que o Governo de Hong Kong recue totalmente no projecto lei de extradição para a China RITCHIE B. TONGO/EPA

Taiwan aproveitou os protestos multitudinários de Hong Kong para uma manobra de diplomacia a seu favor, reafirmando a ideia de que a política “um país, dois sistemas” da China não é mais que uma “mentira" e apelando à “comunidade internacional que apoie a luta do povo pela liberdade e por eleições democráticas” na antiga colónia britânica. É a mais recente ofensiva diplomática do Governo de Taipé a cinco meses de eleições presidenciais. 

“No 22.º aniversário da transição de Hong Kong, os cidadãos estão a ferver de raiva e frustração”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Joseph Wu, no Twitter. “É óbvio que a fórmula ‘um país, dois sistemas’, do Partido Comunista Chinês, é uma mentira. Apelo à comunidade internacional que apoie a luta do povo pela liberdade e por eleições democráticas”.

A situação na região administrativa especial é encarada por Taiwan como espelho do que lhe espera se aceitar a unificação com a China: um abraço de urso em que a influência e controlo chineses se alargam aos media, sistema judicial, governo, empresas, sindicatos. 

Com os protestos, a Presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, pode, explica o politólogo Timothy Rich, da Universidade do Kentucky, nos EUA, à Associated Press, “usar a ameaça chinesa para se reposicionar a si própria e ao seu partido como defensores da democracia, de que é correcto ser cauteloso no que diz respeito à China”. Tsai colocará a política de Pequim no centro da campanha para assim conquistar votos entre o eleitorado independentista até às próximas presidenciais, marcadas para 1 de Janeiro de 2020. 

Duras condenações

Foi com duras palavras de condenação que Pequim e a chefe do Governo de Hong Kong, Carrie Lam, reagiram esta terça-feira à invasão e vandalização do Conselho Legislativo da região administrativa especial pelos manifestantes.

“Alguns elementos extremistas usaram violência excessiva para invadir o edifício legislativo e levaram a cabo uma série de destruições. É chocante, de partir o coração e enfurecedor”, reagiu o representante de Pequim em Hong Kong em comunicado divulgado pela agência chinesa Xinhua. “Os seus actos violentos são um desafio extremo ao Estado de Direito em Hong Kong e enfraquecem a paz e estabilidade”, acrescentou.

“Estou muito indignada e angustiada e condeno-a vigorosamente”, afirmou Lam em conferência de imprensa poucas horas depois de a polícia de intervenção ter expulsado os manifestantes do parlamento. Os danos foram tão significativos que os trabalhos parlamentares foram suspensos por pelo menos duas semanas.

Tecendo uma linha entre os manifestantes “violentos” e os milhares de pessoas que marcharam nas ruas de Hong Kong para assinalar o 22.º aniversário da transferência de soberania do Reino Unido para a China, a chefe do Governo garantiu que vai, com medidas judiciais, “perseguir o comportamento desordeiro até ao fim”, sem no entanto dar mais pormenores. Pequim exigiu isso mesmo ao Governo da região.

Entretanto, Lam garantiu que a proposta lei de extradição entretanto suspensa expirará no final da presente legislatura, em Julho de 2020. “É uma resposta muito positiva às exigências que recebemos”, disse a chefe do Governo de Hong Kong. Mas os manifestantes exigem o recuo total e imediato da lei que permite a extradição para a China.

A polícia de Hong Kong também ficou sob fogo por ter deixado o parlamento à mercê dos manifestantes. Levantaram-se suspeitas de se ter tratado de uma táctica para virar a opinião pública contra os manifestantes – as imagens de vandalismo e violência poderiam funcionar nesse sentido. “Isto foi uma armadilha. Os manifestantes que estavam a entrar no Conselho Legislativo podiam ter sido facilmente dispersados pela polícia”, denunciou ao South China Morning Post Fernando Cheung, deputado do Partido Trabalhista que acompanhava os manifestantes.

As teorias sobre a actuação das forças de segurança são muitas, inclusive a do recuo da polícia servir de pretexto para uma intervenção chinesa na região. “Devemos lembrar-nos sempre que na improvável circunstância de a polícia ser vista como incapaz de manter a ordem, a única alternativa ser a intervenção directa do continente”, explicou Steve Vickers, antigo comandante do departamento de Informações Criminais da Polícia de Hong Kong, à Reuters.

Acusações recusadas pelas autoridades. O comissário da polícia de Hong Kong, Lo Wai-chung, explicou que o recuo se deveu à falta de opções de actuação: cercados há oito horas por 30 mil manifestantes e com alguns a serem violentos e a mexerem no quadro de electricidade do edifício, os polícias receavam que uma carga policial pudesse colocar em risco vidas humanas com uma debandada geral. Sem alternativa, continuou, as autoridades tiveram de recuar para ponderar opções de acção – esperaram três horas até entrarem no edifício para dispersar os manifestantes.