Crónica

A Internet é uma pessoa caprichosa

A arte de fugir a uma discussão no Facebook ou no Twitter tem sido confundida, injustamente, com cobardia.

O ambiente estava de cortar à faca naquela sala de aulas do curso de Jornalismo, onde se discutia o peso das imagens de fome e miséria que as televisões transmitem à hora do jantar.

O Vasco dizia que aquilo lhe dava voltas ao estômago, e que as televisões deviam ser mais cuidadosas com as cenas de violência que lhes chegam de todos os lados do mundo. Especialmente à hora das refeições, quando as famílias — pai, mãe, filho e espírito santo, dizia o engraçadinho do Rui muito baixinho enquanto o Vasco falava — querem apenas falar sobre coisas boas e positivas.

Para o Vasco, a vida era como uma estranha laranja em que uma das partes é, na verdade, metade de um limão. Partida em dois, a vida podia então ser aproveitada na sua plenitude: há horas certas para nos preocuparmos com a fome e a miséria alheias, mas nunca entre as 20h e as 21h, quando as pessoas estão a comer — como Deus quer, dizia o engraçadinho do Rui muito baixinho enquanto o Vasco falava.

Foi preciso que o Paulo destapasse o óbvio para que o óbvio pudesse fazer o seu trabalho, por vezes ingrato, de se meter onde não é chamado: Vasco, se tu ficas chocado com as imagens de crianças com fome enquanto estás a jantar, imagina o que sentiriam as crianças com fome se te vissem a comer frango assado com arroz de ervilhas e batatas fritas de pacote.

A partir desse momento, tornou-se impossível acompanhar a discussão na sala, e qualquer pessoa com o mínimo de sentido de preservação da sanidade mental teria saído dali a correr para a tasca da esquina. A última coisa que atravessa o espírito de uma pessoa ajuizada é ver-se no meio de uma multidão de gritos a favor ou contra uma coisa e o seu contrário, especialmente se a energia positiva dos tremoços começa a mudar-lhe a forma de encarar as prioridades.

Anos mais tarde, quando o Facebook e o Twitter já eram coisas, as discussões começaram a ser mais resistentes ao apelo dos tremoços. Afinal, atrás de um teclado, e tão longe uns dos outros como avião sem asa, fogueira sem brasa, os Paulos já não podem acabar a tarde numa tasca da Internet a explicar aos Vascos o que queriam dizer quando lhes chamaram burros.

É por isso que a arte de fugir a uma discussão no Facebook ou no Twitter tem sido confundida, injustamente, com cobardia.

No passado, mais concretamente naquele passado em que os Vascos e os Paulos discutiam o peso das imagens de fome e miséria que as televisões transmitem à hora do jantar, ninguém ficava com a impressão de que os Vascos e os Paulos eram a mesma pessoa — era possível vê-los, ali à nossa frente, e até partilhar com eles um prato de tremoços.

Mas não é isso que acontece quando discutimos os grandes temas da humanidade no Facebook e no Twitter, como a habilidade de Ricardo Quaresma para escolher peças de vestuário.

Esta semana, quando foi notícia a medalha de ouro da portuguesa Fu Yu no ténis de mesa, nos Jogos Europeus, os Paulos da Internet deram-lhe os parabéns e os Vascos repetiram a mesma graçola vezes sem conta: “Deve ser portuguesa de Coimbra LOLOL.”

Espertos e engraçadinhos como só eles, os Ruis do Facebook foram a correr atirar bombas de ironia para cima dos Vascos. Só que acabaram por atingir também os Paulos: “Quer dizer, quando é para ganhar o Euro até dão beijinhos ao Eder, mas quando não vos convém, dizem que são estrangeiros. Decidam-se, pá!”

Por mais justa que seja a observação, a verdade é que ela parte de um erro que não acontecia no tempo em que as discussões acabavam em tremoços — naquela altura, as pessoas também se indignavam com facilidade, mas ninguém confundia o todo pelas partes. Se o Vasco se chocava com as imagens de fome e o Paulo se chocava com o choque do Vasco, mandava a lógica que o Vasco e o Paulo se chocavam com coisas diferentes.

No final, já na tasca, ninguém acusava os colegas, cada um com a sua opinião, de terem todos a mesma opinião num momento e de assumirem todos uma opinião contrária no momento seguinte. Porque, mandava a lógica, isso era estúpido.

Para preservarmos o pouco que resta da nossa sanidade mental, seria útil que não olhássemos para a Internet como se fosse uma pessoa, ainda por cima mais instável do que um apostador do Euromilhões, que já festejava o Jackpot quando lhe disseram que os números eram do sorteio da semana passada.

Da próxima vez que nos depararmos com uma discussão no Facebook ou no Twitter, principalmente se for daquelas mesmo importantes como a fotografia da Dona Dolores de fato de banho à beira da piscina, lembremo-nos do Vasco e do Paulo. E dos tremoços que esperam por nós na tasca da esquina se não perdermos tempo com a conversa.