Carta de D. João II inclui a primeira notícia da viagem de Colombo

Documento inédito de 1493 foi encontrado num arquivo em Espanha e pode ser visto na sala de exposições do Arquivo Histórico da Nobreza, em Toledo, até finais de Julho.

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A carta que assinala o regresso de Colombo do continente americano pode ser vista em Toledo Ismael Herrero/EPA

Uma carta escrita em português pelo rei D. João II até agora desconhecida foi identificada como sendo muito provavelmente o mais antigo relato do descobrimento da América por Cristóvão Colombo. O documento inédito, datado de 3 de Maio de 1493, dá conta da chegada ao porto de Lisboa do almirante italiano ao serviço dos Reis Católicos e foi encontrado no arquivo dos condes de Villagonzalo, que está a ser submetido a um processo de tratamento técnico depois de ter sido incorporado em 2010 no Arquivo Histórico da Nobreza espanhola, um organismo do Ministério da Cultura.

“Veio ter com fortuna do mar ao nosso porto da nossa cidade de Lisboa Dom Cristóvão, vosso almirante, que folgamos muito de ver e mandar tratar bem por ser coisa vossa”, lê-se na carta escrita por D. João de Portugal a Fernando de Aragão, numa transcrição feita pelo paleógrafo Pedro Pinto, já disponível num blogue português dedicado a Cristóvão Colombo e por nós adaptada ao português contemporâneo.

Cristóvão Colombo atingiu oficialmente terras do continente americano a 12 de Outubro de 1492, pensando que chegava à Índia. No regresso, passados seis meses, a 4 de Março de 1493, aportou a Lisboa, acidentalmente, em consequência de uma forte tempestade que separou a sua caravela do resto da expedição.

A embarcação de Martín Alonso Pinzón chegou a Espanha uns dias antes (a 1 de Março), a Baiona (Galiza), tendo o navegador espanhol comunicado aos Reis Católicos, que se encontravam em Barcelona, a notícia de que havia terra firme para oeste do oceano Atlântico. “Contudo, não se conserva nenhum testemunho desta notícia, pelo que esta missiva de D. João II seria o primeiro testemunho do regresso com êxito de Colombo depois da sua primeira viagem”, lê-se no comunicado do Arquivo Histórico da Nobreza.

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Cristóvão Colombo

“A carta escrita em Maio em Torres Vedras mostra que o rei levou dois meses a responder. O assunto foi muito mastigado. Estão a tentar ver em que medida a viagem afecta os interesses portugueses e o que é que, de facto, ele encontrou”, afirma o investigador José Virgílio Pissarra, do Centro de História da Universidade de Lisboa (CH-UL), dizendo que a carta não acrescenta muito ao que já sabemos.

D. João II comunica que o assunto será tratado por Rui de Sande, que se sabe ter chegado a Barcelona em inícios de Abril. “Além da notícia da chegada de Cristóvão Colombo, o documento é igualmente uma carta de acreditação para que o embaixador Rui de Sande entre em conversações com os Reis Católicos. A carta é muito diplomática e não desvenda as intenções do monarca português sobre as negociações que se seguirão. Diz apenas que o assunto vai ser tratado através de Rui de Sande, ao qual o rei português dará informações e instruções detalhadas.”

Quase 15 anos antes, o Tratado de Alcáçovas-Toledo, assinado pelas monarquias portuguesa e castelhana em 1479, estabelecia em relação à exploração do Atlântico que Castela ficava com as ilhas Canárias e que as terras a descobrir ao longo da costa africana seriam portuguesas. “Nada é dito sobre a exploração do Atlântico ocidental. A viagem do Colombo é que vem colocar a necessidade dessa discussão”, comenta o investigador.

Num segundo documento encontrado no mesmo arquivo dos condes de Villagonzalo, igualmente uma carta de D. João II a Fernando de Aragão, agora datada de 23 de Maio de 1493, o rei português diz que aceita cancelar a saída de uma armada, comandada por D. Francisco de Almeida, que se preparava para reclamar pela força as terras descobertas por Colombo: “Que nenhumas caravelas e navios de nossos reinos e fora deles não vão ao que ora novamente achou Dom Cristóvão Colombo, vosso almirante.”

As cartas, diz o arquivo espanhol, “constituem assim o começo das negociações que dariam lugar ao Tratado de Tordesilhas”, assinado um ano depois. Em 1494, a divisão passa a ser feita a partir do meridiano de Tordesilhas, de pólo a pólo, ficando Portugal com as terras descobertas e a descobrir até 370 léguas a ocidente de Cabo Verde.

Os documentos foram encontrados entre os papéis da família Maldonado, futuros condes de Villagonzalo, mais concretamente dentro dos documentos pessoais de Rodrigo Arias Maldonado (ca. 1456-1517). Segundo o arquivo espanhol, o documento foi parar às mãos de Rodrigo Maldonado porque este era membro do Conselho Real de Castela e não existia, naquela época, um arquivo destinado a recolher a documentação do que hoje consideramos público. O Arquivo de Simancas, o primeiro arquivo oficial da Coroa de Castela e Leão, só foi fundado em 1540.

Até finais de Julho, as cartas podem ser vistas na sala de exposições do Arquivo Histórico da Nobreza, em Toledo.

Notícia corrigida a 27/6/2019: a data da segunda carta é 23 de Maio e não 25 de Maio

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