Inês Neto dos Santos, à esquerda, e Huma Kabacki, co-curadoras do café-exposição <i>Tender Touches</i>
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Inês Neto dos Santos, à esquerda, e Huma Kabacki, co-curadoras do café-exposição Tender Touches Tania Dolvers

Inês abriu um “café” em Londres com arte de meter à boca

Tender Touches é uma exposição de arte que funciona como um café. Inês Neto dos Santos, artista e chef, senta-nos à mesa para sujar a ideia da galeria de paredes brancas, onde não se pode tocar nas obras — muito menos comê-las.

Entrar numa exposição de arte como se estivéssemos a entrar num café. Ups. Voltar a sair, confirmar a porta, espreitar pela montra e é ali mesmo, voltar a entrar na exposição. “Que é mesmo um café”, ri-se Inês Neto dos Santos, co-curadora da Tender Touches, a funcionar até 30 de Junho, na galeria AMP, em Londres. 

PÚBLICO - Cerâmica de Bea Bonafini recheada com a comida de Inês Neto dos Santos
Cerâmica de Bea Bonafini recheada com a comida de Inês Neto dos Santos Cortesia <i>Open Space</i>
PÚBLICO - Cerâmica de Bea Bonafini e do estúdio Arhoj
Cerâmica de Bea Bonafini e do estúdio Arhoj Cortesia <i>Open Space</i>
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Cortesia <i>Open Space</i>

A confusão de quem entra na zona residencial era esperada — desejada, até. A artista portuguesa pensou um espaço artístico que sujasse as paredes brancas, arrancasse as obras da parede e questionasse o ambiente estéril (e o silêncio) de uma galeria. “Porque às vezes acho que o espaço de exposição pode ser um bocadinho intimidante”, confessa ao P3. "E achei que levar alimentos ou levar um jantar para dentro desse espaço poderia quebrar um bocadinho essas barreiras e mudar as dinâmicas.”

Ali, as obras dos 11 artistas convidados não estão (só) expostas. São as mesas, os pratos disformes, os talheres em forma de pickles, os bancos​ em tons pastel — feitos por um outro designer português, Tiago Almeida. E podem estar nas mãos e na boca de quem se senta a provar a obra de Inês: ou seja, a comida. No menu entram pratos como feijão branco, funcho e morangos; brioche, ricotta, uva-crispa e caramelo; iogurte labneh (que está pendurado no tecto, também), dukka (uma mistura de especiarias) e azeite. As iguarias, inspiradas nos artistas que integram a exposição, mudam todas as semanas. Para Clementine Keith-Roach, escultora responsável pela peça no centro das mesas, Inês fez uma panna cotta de lúcia-lima, mel e morangos e a pensar em Magda Skupinska preparou pão de milho, iogurte de curcuma, verduras e ovo. Como se estivesse numa performance.

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Never Let Me Go (2019), de Lindsey Mendick para a Tender Touches Tania Dolvers

Depois de uma licenciatura em Design Gráfico e Ilustração na London College of Communication (2013)a artista de 26 anos começou a pensar em formas de trazer a comida da cozinha para o atelier. Houve até momentos onde considerou estudar cozinha, mas durante o mestrado em Comunicações Visuais, na Royal College of Arts (2016), atreveu-se antes a explorar processos de transformar alimentos em instalações artísticas. 

Começou a organizar jantares mensais para 20 a 30 convidados de diferentes departamentos da faculdade. “Tentava ter pessoas que não se conhecessem, criava um tema e uma refeição inspirada nesse tema.” Ainda continua a fazer esses jantares-exposição, agora sob a forma de um supper club, com diferentes temas e sempre em conjunto com outros artistas que expõem trabalhos durante a refeição. Ela inspira-se neles para criar um menu, quer nas texturas, cores, significados, sabores. Ao projecto colaborativo chamou Mesa

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Inês Neto dos Santos Liz Gorman

“O menu tem inspiração nos artistas com quem trabalho, mas também na ideia de quebrar barreiras e pensar nos limites de uma obra de arte: posso tocar, posso sentar, posso levar?” Estar rodeado de “esculturas com uma parte funcional" é, sublinha, uma oportunidade para “desenvolver um pensamento crítico, estético, em acções corriqueiras do dia-a-dia, como fazer um café ou comer um iogurte”.

Em exposições e instalações anteriores, Inês já criou, por exemplo, “um momento comestível” que não dependia de “fontes de energias comuns, como a electricidade e o gás": “Eram coisas preservadas em água, sal, vinagre ou secas ao sol. Queria explorar uma conexão com a natureza e mostrar que temos recursos incríveis à nossa disposição, se nos interessarmos e se os soubermos usar.” 

Trabalha muito os processos de fermentação, desde que começou “a ver muitas metáforas entre o processo que se baseia em trocas simbióticas de microrganismos” e “o trabalho colaborativo, a vida em comunidade, a troca de conhecimentos ou de sabedoria entre pessoas”. No contexto artístico, teoriza, “os fermentados são uma peça georreferenciada" — o frasco “transforma-se num arquivo de sítio e do momento no tempo em que se desenvolve”.

Para construir as peças comestíveis da exposição, que alberga ainda conversas, jantares, workshops e performances, Inês, a viver em Londres há oito anos, procura trabalhar “com produtores locais e ingredientes da época”. “Acho que na crise ambiental em que vivemos essa é a única resposta. E para além disso acho que é importante criar essas ligações ao sítio onde estou.”

Desde 17 de Maio que o “café” de Inês está aberto de quarta-feira a domingo, das 10h às 18h, na galeria AMP. A entrada é livre — paga-se apenas o que se come. A instalação conta com co-curadoria de Huma Kabakci, fundadora da Open Space, a galeria sem espaço físico que promove a Tender Touches. Esta é a primeira de uma série de exposições chamada Edible Goods, que transforma a comida “num meio para a arte contemporânea”.