Paulo Fonseca continua a colher dividendos das lições no FC Porto

Após três épocas em que conquistou sete troféus na Ucrânia, o treinador português vai dar mais um passo em frente na carreira: assinou por dois anos pela AS Roma. A passagem pelo Estádio do Dragão continua a ser a única mancha no seu currículo.

Paulo Fonseca venceu sete troféus na Ucrânia
Foto
Paulo Fonseca venceu sete troféus na Ucrânia LUSA/ETTORE FERRARI

Três campeonatos, três Taças e uma Supertaça depois, o projecto desportivo de Paulo Fonseca na Ucrânia esgotou-se. Após três épocas de sucesso absoluto no Shakhtar Donetsk, o técnico português, de 46 anos, vai dar mais um passo em frente na carreira e nesta terça-feira foi apresentado como novo treinador da AS Roma para as próximas duas épocas. Nas primeiras palavras como líder dos “giallorossi”, Fonseca disse acreditar ser possível “criar algo de especial” em Roma e reeditar o sucesso que teve em sete das oito equipas que já treinou. A excepção foi o FC Porto, o clube onde aprendeu a lidar com “egos e superegos”.

Há pouco mais de dez dias, Rinat Akhmetov, o multimilionário ucraniano presidente do Shakhtar, tinha confirmado em entrevista a uma televisão do seu país que se Paulo Fonseca recebesse “uma proposta de um grande clube” havia um “acordo verbal” para libertar o português. Sem surpresa, a proposta chegou de Roma e Akhmetov cumpriu a palavra, abdicando de um “treinador jovem, altamente qualificado, com uma boa ideia de jogo”.

“Merece um enorme respeito de todos e é normal que grandes clubes estejam interessados nele”, acrescentou. Os elogios a Fonseca não se resumem ao ex-patrão. O novo, o norte-americano James Pallota, dono e presidente da AS Roma, apresentou nesta terça-feira o português como um “treinador ambicioso, com uma ideia de jogo corajosa e ofensiva, que vai entusiasmar”.

Do sucesso no Pinhalnovense à desilusão no FC Porto

O consenso em torno da capacidade técnica de Paulo Fonseca resulta de uma carreira de 11 épocas coroada, quase na totalidade, de sucesso.

Natural de Nampula, em Moçambique, Fonseca teve uma carreira sólida como jogador. Central competente, jogou uma década ao mais alto nível em clubes como o Leça, Belenenses, Marítimo, V. Guimarães e Estrela da Amadora, formação na qual terminou a carreira de atleta e iniciou as funções de técnico nas camadas jovens.

Nos seniores, a primeira experiência foi em Sintra (1.º Dezembro), seguindo-se uma curta mudança para Odivelas. Porém, foi um pouco mais a Sul que Paulo Fonseca começou a ser notícia: em 2009-10 e 2010-11, levou o modesto Pinhalnovense aos quartos-de-final da Taça de Portugal, o melhor desempenho da história do clube.

O sucesso em Pinhal Novo abriu as portas do futebol profissional a Fonseca e à mudança para o Norte, onde permaneceu até emigrar. Primeiro no Desp. Aves, onde ficou a dois pontos de subir à I Liga, depois no Paços de Ferreira, onde cometeu a proeza de levar os pacenses a um histórico 3.º lugar e a uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões.

O feito valeu-lhe o convite para treinar o FC Porto. A aventura no Dragão até começou bem – conquista da Supertaça e vitórias nos seis primeiros jogos oficiais -, mas o passo de Fonseca tinha sido maior do que a perna.

Uma equipa desfeita

Embora alguns considerassem a aposta “de risco”, Fonseca chegava ao FC Porto como o “melhor treinador de 2012-13”, mas encontrou uma equipa que já dava, na época anterior, sinais de fraqueza. E perdeu Moutinho e James numa primeira fase, Otamendi e Lucho em Janeiro. Da equipa que, três anos antes, maravilhou tudo e todos com Villas-Boas, já pouco restava. Comparando para o “onze” que tinha entrado em campo na final da Liga Europa, em Dublin, sobravam Helton, Fernando e Varela.

Apesar do desinvestimento da administração da SAD “azul e branca” nessa época, Fonseca não se podia considerar apenas réu. Olhando para as suas opções no FC Porto, era difícil de compreender a teimosia nas opções para o meio-campo, onde o pecado mais flagrante foi a insistência em colocar Lucho em terrenos que não eram o seu habitat natural.

Com Carlos Eduardo como alternativa, Fonseca colocou o argentino a “10” e duplicou o erro ao apostar, de forma obstinada, em arranjar um parceiro para Fernando à frente da defesa. Os equívocos foram corrigidos, mas deixaram feridas abertas. Sem surpresa, Fonseca acabou despedido por Pinto da Costa a 5 de Março de 2014, o dia em que completava 41 anos.

Cinco anos e oito troféus depois - um no Sp. Braga (Taça de Portugal); sete no Shakhtar -, Fonseca reconhece que aprendeu a lição: “Lidar com egos e superegos foi a maior dificuldade. Cheguei ao FC Porto com um ano de I Liga e um tipo de futebolistas diferente daquele que encontrei. Esse ano foi um dos mais importantes na minha carreira. Aprendi bastante e estou a servir-me desse ensinamento”, disse já este ano.

Hoje, Fonseca continua a colher dividendos das lições no FC Porto. Falta saber se esses ensinamentos serão suficientes para ser bem-sucedido no capítulo seguinte, a exigente Serie A, onde apenas um treinador português triunfou: Mourinho, ao serviço do Inter.