E o Hulk, também tem ciática?

De consolação trago a certeza de que até o Hulk tem ciática e com ele uma boa parte dos que já passaram a barreira dos 30. Aliás, tendo o Hulk 57 anos, ciática é o menos e eu mal posso esperar pela minha vez.

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Zhu Liang/Unsplash

O diagnóstico foi imediato e certeiro depois de 20 minutos de dor e agonia no chão, incapaz de me levantar, respirar ou mover, tal a dor nas costas, na região lombar para ser mais preciso.

“Ciática”, disse o médico, seguido de duas injecções de Voltaren e o rabo ao léu, mais a palmada da agulha. 
Ciática... primeiro os cabelos brancos, depois a barba, que nunca tive, também branca, e agora ciática e a confirmação de cá não ficar para sempre: estou a ficar velho.

Eu, a ficar velho! Eu, que pedalo 100 quilómetros todas as semanas, a ficar velho.

A causa? Degenerescência dos discos intervertebrais com o passar dos anos e da idade. Já tinha desconfiado aquando da renovação do cartão de cidadão e a certeza de um centímetro a menos de altura. Mas sem dor nas pernas ou nas costas para me alertar, continuei com a minha vida. Até hoje. Até cair de joelhos desamparado no chão, dependente e vulnerável, vítima de uma dor aguda sem causa aparente, minto, uma dor fruto dos pecados deste mortal que vos escreve. 

Rendo-me. Confesso.

Agora não há nada a fazer. Ou há, entre alongamentos e exercícios localizados, que a idade não perdoa. Resigno-me todas as manhãs a esta condição de sénior e à ginástica diária para prevenir males maiores. Sem vergonha, que a vergonha não dói, ao contrário da ciática e da falta de ar a cada espasmo lombar.
Independentemente de ser capaz de proezas físicas impossíveis há 20 anos quando a força dos membros de pouco me vale com um nervo lesionado.

De consolação trago a certeza de que até o Hulk tem ciática e com ele uma boa parte dos que já passaram a barreira dos 30. Aliás, tendo o Hulk 57 anos, ciática é o menos e eu mal posso esperar pela minha vez. Já estou a caminho, resta-me aguardar enquanto conto os comprimidos e as pomadas que se acotovelam na mesa de cabeceira. Pareço a minha avó, cheio de doenças e remédios a passar a vida a falar de doenças e remédios — e só não me rio porque dói. 

Se a experiência, o saber e a calma foram os melhores presentes com o passar dos anos, reconheço não ser de ferro e até o ferro enferruja. Sem querermos, o corpo dá de si e nós também. Mas não é o fim, é um percalço, um percalço quando me sento e quando me deito, quando me levanto e encho o peito. E enquanto há vida há esperança, pelo que já liguei para o Hulk e a partir desta semana vamos à fisioterapia juntos, ele de andarilho e eu de bengala, alongar e aquecer músculos e ligamentos, primeiro ele e depois eu, antes de trocarmos, dois bons amigos contentes a envelhecer um ao lado do outro.
 

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