Crónica

Namorar

Todos desejamos um pouco de romance, forma de nos desligarmos de um quotidiano cinzento onde muitos de nós estão imersos.

O ordenado que não dá para quase nada, a filha para criar, a mãe já velhota para cuidar, um apartamento que vou ter de abandonar 15 anos depois por causa da especulação imobiliária, a minha cidade a esboroar-se à mão da incapacidade política, um país a sonhar com a saída da crise mas sem horizonte de futuro, políticos desligados do real, pouca cidadania activa, a precariedade como modo de vida à minha volta e no entanto parece que vivemos todos na fantasia de que está tudo muito bem. Para já não falar do planeta a esvair-se, enquanto os nossos colunistas se inquietam com o PAN, como se não houvesse mais nada para os preocupar. 

Vinha nisto, a andar em passo lento, ao final da tarde, junto ao rio, perdido nos meus pensamentos, como costumo vir nos últimos tempos, desgostoso e preocupado, comigo e com os outros, quando aquilo se me deparou. Era um carro pequeno, antiquado, tipo Fiat 600 ou coisa parecida (sim, não percebo nada de carros), em local discreto, e lá dentro estavam duas pessoas que, de mãos dadas, trocavam sorrisos meio envergonhados, quase evitando olhar-se. Fixei-os bem, pelo ar excessivamente bem composto, e talvez porque aparentavam estar na casa dos 60 e muitos ou mesmo já dos 70 anos.

Não era a situação adolescente de namorar no carro como única alternativa. Nem o cenário dos amantes na crise da meia-idade, como naquele local é habitual. Nem o lugar-comum do patrão que leva a secretária a passear ao final da tarde para apanharem, deve ser, um pouco de ar puro. Pareciam os dois ter acabado de sair de um escritório perdido no tempo, ou de um mau poema de Fernando Pessoa (sim, também os há, não me venham com coisas) e a fisicalidade algo contraída de ambos dava a entender que deviam conhecer-se ainda mal. Mas estavam embeiçados, com ele ligeiramente corado, em pose muito respeitosa, e ela revirando as pálpebras de satisfação, como numa boa, de tão má, fita de antigamente.

Apesar da idade comportavam-se como adolescentes de 15, parecendo inquietos por alguém os ver, ou como amantes de 40, excitados pela situação, encaixados naquele carro mínimo que enchiam de romance. Ao vê-los desviei-me da realidade suja de segundos antes, enquanto me lembrava da cena final do filme The Graduate, de 1967, quando o apaixonado Dustin Hoffman resgata no último momento a amada Katherine Ross que se preparava para dar o nó, correndo os dois rumo à felicidade como (não acontece) só nos filmes. No argumento estava estabelecido que os dois entravam de rompante num autocarro e riam, alegres, até ao genérico final, como era norma em Hollywood. Mas conta a lenda que nenhum deles conseguiu fazer isso, alternando o riso com a seriedade.

É como tivessem caído em si e tomado consciência do passo que haviam dado. O amor tem essa dualidade. Pressupõe uma escolha. Ganha-se umas coisas, perdem-se outras. Os argumentistas queriam que os personagens fossem felizes para sempre. Mas nunca se sabe. E os actores sabiam-no.

No dia seguinte, à mesma hora, no mesmo local, lá estavam os dois outra vez, e desta vez até me senti intruso quando passei pelo carro. Estive quase para lhes oferecer casa para o namorico, embora ali, naquele cubículo, faces rosaditas, estivessem perfeitos, para uns instantes de poesia cor-de-rosa. No fim de contas todos desejamos um pouco de romance, forma de nos desligarmos de um quotidiano cinzento onde muitos de nós estão imersos. É como aqueles filmes de final feliz. Confortam-nos. Mesmo quando não acreditamos neles.