Portugal vai acolher um dos oito novos supercomputadores europeus

Equipamento custará 11 milhões de euros e vai ser instalado num centro de computação no Minho. Academia e sector privado poderão candidatar-se a usar os recursos da nova máquina.

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A União Europeia vai investir 840 milhões em infraestruturas de supercomputação Adriano Miranda

Portugal foi um dos países escolhidos para instalar um dos oito novos supercomputadores europeus, que vão dar a investigadores e à indústria acesso a capacidade de processamento para projectos em áreas como a medicina e a inteligência artificial. Com um investimento total de 840 milhões de euros, a União Europeia quer também recuperar terreno face aos EUA e à China, que lideram a corrida da supercomputação.

A Comissão Europeia anunciou nesta sexta-feira os resultados do concurso da Empresa Comum Europeia para a Computação de Alto Desempenho (EuroHPC), uma iniciativa lançada no final do ano passado e que junta entidades públicas e privadas. A candidatura portuguesa, feita pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), levou a que um dos locais escolhidos para a instalação de uma das máquinas fosse o Centro de Supercomputação Avançada do Minho, que funciona em Riba de Ave, Famalicão, em instalações da REN (a gestora da rede de energia em Portugal), e que é gerido em parceria com a Universidade do Minho.

Para além do Minho, foram seleccionados oito locais para acolher as novas máquinas: Sófia (Bulgária), Ostrava (República Checa), Kajaani (Finlândia), Bolonha (Itália), Bissen (Luxemburgo), Maribor (Eslovénia) e Barcelona (Espanha).

Portugal fez também uma parceria com Espanha para o concurso e tem uma participação de 10% no computador que será instalado em Barcelona e que é mais poderoso do que o que virá para o Minho.

O termo “supercomputador” é uma expressão vasta que designa computadores com capacidades de processamento muito diferentes. O que será instalado no Centro de Supercomputação Avançada do Minho​ tem uma capacidade de dez petaflops, cerca de 40 vezes superior à do mais poderoso supercomputador português actual, que também está instalado no Minho.

“O que existe em Portugal, ainda medimos na escala dos teraflops, mil vezes menos”, explicou ao PÚBLICO o professor da Universidade do Minho António Cunha. “É um grande reforço da capacidade europeia a este nível, estávamos um pouco atrás dos EUA e da China”, notou.

A máquina, que deverá começar a funcionar no final de 2020, tem uma capacidade de memória de 266 terabytes (cerca de 16 mil vezes mais do que o típico computador pessoal portátil) e uma capacidade de armazenamento de dez petabytes. Custará cerca de 11 milhões de euros, um montante que será em parte financiado por dinheiro europeu.

Estes supercomputadores servem para investigadores executarem tarefas que requerem uma grande capacidade de cálculo. Tipicamente, são usados em áreas como a física, a biologia e a medicina (incluindo no desenvolvimento de novos fármacos), bem como para a análise de grandes quantidades de dados (o tipo de tarefa que tem sido cada vez mais frequente, incluindo no sector privado), e ainda em previsões meteorológicas e estudos sobre alterações climáticas. O acesso à computação é feito remotamente. É possível, por exemplo, que investigadores e entidades de um país acedam a poder de computação noutro.

“As ferramentas de investigação geram dados em massa, e só através destas máquinas se consegue atingir resultados relevantes na perspectiva de ciência. Sem estas ferramentas, ficamos completamente arredados”, notou ao PÚBLICO Nuno Rodrigues, vogal da FCT.

O acesso dos investigadores a tempo e capacidade de computação será feito por concursos, alguns dos quais a nível nacional, e outros organizados a nível europeu. Nuno Rodrigues notou que também o sector privado poderá candidatar-se a usar o processamento das novas máquinas.

A EuroHPC vai agora avançar para o processo de compra dos oito novos supercomputadores. Três deles (incluindo o de Barcelona) serão mais poderosos – são os chamados “precursores de máquinas à exaescala”, que são capazes de executar mais de 150 mil biliões de cálculos por segundo. A Comissão Europeia afirma que estes estarão “entre os cinco supercomputadores mais potentes a nível mundial”. Os restantes serão “máquinas à petaescala” e serão capazes de executar, pelo menos, quatro mil biliões de operações por segundo.

“Os supercomputadores já estão no centro dos principais progressos e inovações em muitas áreas que afectam o quotidiano dos cidadãos europeus. Podem ajudar-nos a desenvolver uma medicina personalizada, poupar energia e lutar contra as alterações climáticas de forma mais eficiente”, observou, em comunicado, o comissário para Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas. “Uma maior infra-estrutura europeia de supercomputação tem um grande potencial para criar emprego e é um factor essencial para a digitalização da indústria e para o aumento da competitividade da economia europeia.”