Militares do Sudão anunciam disponibilidade de diálogo um dia depois de a recusarem

Associação de médicos denuncia 60 mortos no avanço das forças de segurança contra manifestantes que querem mais participação no processo de transição.

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Reuters

O chefe militar do Sudão parece ter voltado atrás - depois de ter anunciado o fim de toda as negociações com os grupos da oposição e de ter marcado eleições dentro de nove meses, Abdel Fattah al-Burhan disse nesta quarta-feira que está disposto a recomeçar um diálogo para a transição para a democracia no Sudão.

Isto quando uma associação de médicos próxima da oposição disse que o número de vítimas da repressão de um protesto em Cartum na segunda-feira, inicialmente 13, fora afinal de 60, segundo a agência Reuters. A Human Rights Watch pediu uma investigação “imparcial e independente” das Nações Unidas e “sanções punitivas contra os responsáveis”.

Abdel Fattah al-Burhan, chefe do Conselho Militar de Transição, expressou a sua mudança numa comunicação televisiva marcando o Eid al-Fitr, a festa no final do mês do Ramadão. “Nós no Conselho Militar estendemos a mão para negociações sem condições excepto o interesse da pátria”, declarou, citado pela agência britânica.

Na declaração, o chefe militar homenageou a revolta que derrubou o antigo Presidente, Omar al-Bashir, que está preso.

Antes, Burgan tinha anunciado eleições dentro de nove meses e declarado que cancelara as negociações com os grupos a oposição.

O Conselho Militar governa o país desde a deposição de Omar al-Bashir, em Abril, e já tinha acordado com a oposição que deveria haver um período de pelo menos três meses para a transição.

Os militares recusam a exigência da oposição da nomeação de uma administração civil, que ficaria responsável por liderar o processo de transição. Na altura, o militar acusou os opositores de estarem a tentar atrasar as negociações.

Os opositores mantêm-se em protesto e uma operação das forças de segurança contra manifestantes em frente ao Ministério da Defesa terminou com 60 mortos, segundo os números de grupos da oposição – antes, havia registo de 35 vítimas. A associação de médicos que liderou o movimento de protesto contra Bashir pediu uma comissão internacional do que classificou como “um massacre”.

A ideia de realização de eleições dentro de nove meses fora rejeitada pela oposição, que denunciou as medidas mais recentes dos militares e o ataque aos manifestantes: “O que aconteceu - os mortos e feridos nos protestos, a humilhação – são uma tentativa sistemática e planeada de reprimir o povo sudanês”, disse o líder da aliança Liberdade e Mudança, Madani Abbas Madani, à estação de televisão Al-Jazira.