Joaquim Couto, o “dinossauro” socialista que caiu na teia da PJ

Presidente da Câmara de Santo Tirso foi detido por corrupção e tráfico de influência.

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Barbara Raquel Moreira (arquivo)

A detenção do presidente da Câmara de Santo Tirso, na manhã desta quarta-feira, era esperada há muito tempo e à hora do almoço o assunto tomou conta de todas as conversas nos cafés, restaurantes e confeitarias da cidade. Joaquim Couto e a mulher, a empresária Maria Manuela Couto, foram detidos logo de manhã pela Polícia Judiciária na casa onde residem há cerca de dois meses.

O autarca socialista e a empresária trocaram um apartamento (duplex) frente ao mar, em Leça da Palmeira, Matosinhos, por uma casa no resort de luxo de Vale Pisão, em Água Longa, uma freguesia do concelho de Santo Tirso. Trata-se de um condomínio de luxo completamente vedado e com acesso restrito e segurança 24 horas por dias. A vivenda que a família Couto foi estrear sofreu obras interiores antes de ser habitada.

Joaquim Couto, de 68 anos, entrou para o PS no início da década de 80 e tornou-se num “dinossauro” socialista. Em 1982, é eleito presidente da Câmara de Santo Tirso, cargo que desempenhou até 1999. Com o PS no poder é convidado para Governador Civil do Porto, entre 1999 e 2002. O seu percurso passa também pela Assembleia da República, onde é deputado entre 2005 e 2009. O regresso à vida autárquica acontece ainda em 2009, altura em que é eleito vereador na Câmara de Vila Nova de Gaia, no consulado do social-democrata, Luís Filipe Menezes. Mais tarde, em 2013, o PS escolhe-o para liderar a lista e é eleito presidente da Câmara de Santo Tirso, tendo sido reeleito em Outubro de 2017.

Há muito tempo que a Polícia Judiciária andava a investigar o autarca do PS, que é membro da comissão política nacional e presidente da Mesa da Federação Distrital do Porto, para além de presidir à concelhia do partido em Santo Tirso. Em Outubro, quando a sua mulher foi detida no âmbito da Operação Éter — que investigava ajustes directos em serviços prestados ao Turismo do Norte —, o partido temeu que o autarca fosse apanhado nas malhas da PJ, mas apenas a sua mulher ficou detida e só saiu depois de ter pago uma caução de 40 mil euros.

Gerente e sócia de cinco empresas na área da assessoria de comunicação e organização de eventos, Manuela Couto celebrou 57 contratos com a Turismo do Porto e Norte de Portugal, liderado por Melchior Moreira, que se encontra detido desde essa altura.

Entre os contratos sob investigação, encontram-se os efectuados pelas cinco empresas que detém em partes diferentes por Manuel Couto e Luís Ferreira Couto, filho do autarca socialista. Joaquim Couto é amigo de longa data de Melchior Moreira, desde que ambos coincidiram nas bancadas da Assembleia da República, o primeiro eleito pelo distrito do Porto, o segundo por Viseu.

Entre a Operação Éter e a Operação Teia, a Câmara de Santo Tirso foi alvo de buscas no âmbito da Operação Dennis, que fez cinco detidos e tornou arguidos, o vice-presidente da câmara e uma chefe de divisão. Na origem das buscas naquela autarquia do distrito do Porto “está a aquisição de uma viatura eléctrica pelo município, em que foi interveniente” o vice-presidente da câmara, Alberto Costa e a chefe de divisão, Maria Cacilda de Sousa, tendo ambos sido constituídos arguidos.

O envolvimento da autarquia surge em paralelo a uma outra investigação sobre “fraude e criação de empresa que emitia facturas falas a outras empresas, justificando, dessa forma, despesas depois apresentadas para efeitos de candidaturas a fundos comunitários do Portugal 2020”.

O casal Couto foi detido no âmbito da Operação Teia, juntamente com o presidente da Câmara de Barcelos, Miguel Costa Gomes, e o presidente do Instituto Português de Oncologia do Porto, Laranja Pontes. Os dois autarcas socialistas foram detidos por suspeita de corrupção e tráfico de influências. Joaquim Couto e Laranja Pontes foram colegas no curso de Medicina na Universidade do Porto.

Uma das críticas à gestão socialista prende-se com as “muitas viagens” que o presidente faz. O PÚBLICO sabe que no último ano e meio Joaquim Couto viajou, na qualidade de autarca pelo menos, para sete destinos no estrangeiro: Coreia do Sul (onde participou num congresso sobre educação), Brasil, Timor, Austrália, Japão, Chipre e Amesterdão.

O município assinou dois contratos com uma agência de viagens para “o fornecimento contínuo de serviços de viagens, transportes e alojamentos”. De acordo com os dados do Portal Base, o primeiro contrato entre as partes foi assinado a 4 de Junho de 2018, no valor de 65 mil euros. Dez meses depois, a 5 de Abril de 2019, seria assinado novo contrato, desta vez no valor de 74 mil euros. No total, foram 139 mil euros pagos pela Câmara Municipal de Santo Tirso à agência de viagens.