Opinião

Jogador residente, o aplauso de uma raridade

Era apenas mais um jogo da Lazio, em final de época e já sem objectivos palpáveis em causa. Nas bancadas, os tiffosi de sempre com uma mensagem invulgar: “A (Curva) Norte saúda De Rossi, feroz e irredutível inimigo em campo”. De Rossi, um adversário de longa data, jogador-bandeira do grande rival da cidade, merecia uma vénia vinda do outro lado das trincheiras. Uma raridade. Um gesto de se lhe tirar o chapéu.

Este episódio ocorreu há poucos dias, na partida com o Bolonha, e limitou-se a antecipar o anunciado adeus de um médio que fez da Roma a sua casa durante 18 anos. Se há país que não pode queixar-se de falta de “lealdade” de muitas das suas estrelas, é justamente a Itália, mas isso não inibe os fervorosos adeptos de agitarem a bandeira do reconhecimento. Mesmo quando se trata de um herói alheio.

A caminhada de Daniele de Rossi no relvado do Estádio Olímpico chegou ao fim, mas a lenda do médio incansável, destemido e solidário vai perdurar. Tal como continua presente na mesma arena a aura do indómito Francesco Totti. Ou, em paragens próximas, o lendário percurso de Paolo Maldini no AC Milan, de Gianluigi Buffon na Juventus, de Javier Zanetti no Inter. 

Todas as carreiras que fogem à regra, que contrariam o actual padrão dos cifrões e do desporto da mobilidade fácil, têm o condão de despertar atenções. Pelo seu teor romântico, quase démodé. Pela capacidade de remeterem para o imaginário de um futebol com menos tentações, em que era suposto que um único equipamento ou par de botas durassem uma temporada completa.

Nestas alturas, é fácil puxar da expressão “amor à camisola”, como se fosse possível misturar no mesmo caldeirão os ingredientes tão diversos de cada história particular. E como se o mapa de presenças fosse o único barómetro aplicável quando se trata de medir a lealdade. Da mesma forma que é tentador pender para comparações superficiais entre o futebol de meados do século XX, fortemente condicionado pelas restrições na mobilidade (e não só), e o actual jogo sem fronteiras.

Cada nome tem uma história e cada decisão um contexto. Há os que ficam porque nunca tiveram uma oportunidade verdadeiramente compensadora para saírem e os que saem para procurarem lá fora as oportunidades que não encontraram cá dentro. Há os que colocam a família acima de tudo o resto, valorizando mais a estabilidade do que um salto na carreira, e os que decidem sem amarras com medo de perderem o amanhã. Há os que renovam a motivação sem saírem do lugar e os que se alimentam de novos desafios a cada época.

Lionel Messi, por exemplo, continua a engrossar a sua lenda em Camp Nou num casamento que parece inquebrável. Um sinal de inabalável compromisso com o Barcelona, para uns, um sintoma de falta de coragem e de espírito de risco, para outros. Qualquer decisão, na minha óptica, é legítima, mesmo que de fora, muitas vezes, não se veja mais do que um gigante isco a atrair os jogadores em forma de livro de cheques. 

Isto não invalida que nos deixemos entusiasmar por exemplos como os de Steve Gerrard (Liverpool), Ryan Giggs (Manchester United), John Terry (Chelsea) ou mesmo Nicolas Seube (Caen) e, numa lógica de maior proximidade física e temporal, até Luisão (Benfica). Até porque a importância de referências no balneário, para actuarem como facilitadores da aculturação de reforços, não deve ser menosprezada.

De uma coisa podemos estar certos, porém. No fim das contas, o que importa verdadeiramente é a qualidade. Porque ninguém se mantém no topo, durante épocas a fio, se não mostrar rendimento e provar, semana após semana, a sua utilidade na competição. São, de facto, poucos os que conseguem eternizar-se e ainda menos os que se confundem com o símbolo de um clube. E, só por isso, sem atender ao espírito de missão, valerá sempre a pena recordar o nome de jogadores residentes como De Rossi.

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