Totti, o príncipe eterno da cidade eterna

Era um anúncio inevitável e, ao mesmo tempo, inesperado. Vinte e quatro anos depois de se ter estreado na Série A, Francesco Totti vai deixar de jogar.

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Totti LUSA/RICCARDO ANTIMIANI
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Para os adeptos da Roma Totti é um ídolo LUSA/MAURIZIO BRAMBATTI
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Totti em acção LUSA/ETTORE FERRARI
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A despedida de Totti LUSA/ALESSANDRO DI MEO
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Totti com a camisola da selecção italiana LUSA/BENOIT DOPPAGNE

Não foi um anúncio formal, antes uma resposta a uma pergunta que fizeram a "Monchi", no dia da sua apresentação como novo director-desportivo da AS Roma. Perguntaram-lhe o que iria acontecer a Francesco Totti e o espanhol, acabado de chegar, acabou por ser o porta-voz da notícia. “Há um acordo para que esta seja a sua última época como jogador da Roma”, anunciou o espanhol. Já não haverá mais nenhuma extensão de contrato para “Il Capitano”. Totti vai mesmo deixar de ser jogador da AS Roma, 24 anos depois da sua estreia como um miúdo de 16 e onde nunca deixará de ser um ídolo. Não só pelo que fez (quase 800 jogos e mais de 300 golos), mas, também, porque nunca quis ir embora.

“As pessoas perguntam-me”, dizia Francesco Totti em tempos, “porquê passar toda a tua vida em Roma?” “Roma é a minha família, os meus amigos, as pessoas que eu amo. Roma é o mar, as montanhas, os monumentos. Roma são os romanos. Roma é o amarelo e o vermelho. Para mim, Roma é o mundo. Este clube, esta cidade, são a minha vida. Sempre.” Toda a vida Totti teve pretendentes, desde a metade azul da cidade (a Lazio) aos clubes mais poderosos do norte de Itália (AC Milan, Juventus) quando era miúdo, ao Real Madrid ou Manchester United quando era uma “estrela” consagrada. Foi sempre ficando em Roma e foi construindo a sua aura de prínicipe eterno na cidade eterna.

Totti é um dos mais notáveis exemplares de uma espécie cada vez mais rara no futebol mundial, a da fidelidade total a um clube. Entrou aos 13 anos para a formação da Roma e, três anos depois, já se estreava com a camisola da equipa principal. Foram cinco breves minutos, cortesia do seu treinador na altura, Boskov, num encontro que já estava decidido frente ao Brescia. “Já esperávamos que ele se estreasse naquele dia. Tínhamos muitos miúdos a treinar com a primeira equipa, mas não se via muitos a fazer ‘cuecas’ aos seniores. Tinha uma personalidade ao nível do seu talento”, recorda Ruggiero Rizzitelli, que deu o lugar a Totti nesse jogo em Brescia.

Totti só tocou duas vezes na bola nesse jogo e só voltaria a jogar mais uma vez nesse ano. Na temporada seguinte, estreou-se a titular e, no primeiro jogo da época 1994-95, marcou o seu primeiro golo. Em 1998, com 22 anos, passou a ser o capitão de equipa e o dono da camisola 10, estatuto que vai levar até ao último jogo da época, a 28 de Maio próximo, no Olímpico de Roma. Totti foi o segundo mais votado pela equipa para capitão, mas Aldair, o mais votado, não queria essa responsabilidade e a braçadeira foi para o rapaz da casa. “Não era alguém que andasse aos gritos no balneário, mas era o líder perfeito dentro do campo”, conta Zdenek Zeman, o treinador checo da Roma nesse tempo.

A relação entre Totti e a Roma não foi uma história de amor perfeita. Ele não era o jogador mais aplicado nos treinos e isso entrava em choque com treinadores mais disciplinadores, como Bianchi ou Capello. Numa das primeiras épocas, esteve quase a sair para a Sampdoria e, se tal tivesse acontecido, contou depois, nunca teria voltado. Mas sempre que havia um ultimato de Totti ou do treinador, a Roma escolheu sempre Totti.

Não foram muitos os títulos que Totti conquistou na Roma. Por muito que seja considerado um dos maiores craques da história do futebol italiano, nunca conseguiu erguer uma dinastia em Roma capaz de se bater com os mais poderosos clubes do norte. Apenas conseguiu um título de campeão italiano em 2001, com Capello e na companhia de jogadores como Batistuta, Montella ou Delvecchio – depois desse título, a Roma foi oito vezes vice-campeã. Conquistou ainda duas vezes a Taça de Itália e duas vezes a Supertaça. Na selecção, fez parte da equipa campeã mundial de 2006, mas essa final com a França foi o último jogo pela “squadra azzurra”.

Numa carreira profissional de 25 anos, Totti fez 783 jogos pela Roma e marcou 307 golos, sendo que as suas duas melhores épocas em termos estatísticos foram já depois dos 30 – em 2006-07 marcou 32 golos, recebendo a Bota de Ouro nesse ano, e, em 2009-10, marcou 25, e ele nem sequer era um ponta-de-lança, antes um segundo avançado, um criativo. De uma forma ou de outra, Totti ia sempre adiando o final da sua carreira nos últimos anos, mostrando-se útil quando a Roma precisava de um líder. Esta temporada já era uma espécie de digressão de despedida de Totti, jogando uns minutos por jogo, mas de influência reduzida. Totti não escapou ao destino das lendas. É eterno, mas não durou para sempre.