Neste restaurante são os sem-abrigo que fazem e nos servem a comida

O projecto É Um Restaurante da associação Crescer e do chef Nuno Bergonse, que abrirá portas no Verão, dá a quem viveu na rua uma oportunidade de entrar na restauração.

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Américo Nave espera que, no fim, os clientes encarem o espaço como um restaurante normal RUI GAUDÊNCIO

Américo Nave chega de bicicleta ao cruzamento da Rua de São José com a Rua das Pretas, em Lisboa, e convida-nos a entrar no espaço em obras do antigo restaurante Zé Varunca. Por enquanto, só se vê cimento e materiais de construção, mas em breve o número 64 abrirá novamente as portas com o projecto É Um Restaurante, que vai empregar, na sala e na cozinha, pessoas em situação de sem-abrigo. O nome, diz Américo, sorrindo, “torna fácil explicar o que é”.

A ideia nasceu há três anos, quando a Câmara Municipal de Lisboa perguntou a Américo e à sua associação Crescer (que tem, entre outros projectos, o É Uma Casa, que ajuda pessoas a sair da rua começando por lhes dar uma habitação própria), se estariam interessados em gerir um restaurante para quem vive sem-abrigo.

“Na altura disse que não, não é esse o foco da nossa intervenção”, conta Américo. “Perguntaram-me então o que faria com um restaurante. Respondi que punha essas pessoas [sem-abrigo] a dar-nos comida.” É isso que, três anos depois, vai acontecer, em princípio já este Verão.

Neste momento, a Crescer está, com a ajuda das suas equipas de rua e de outras estruturas que trabalham com sem-abrigo, a identificar quem queira integrar a equipa inicial. A ideia é recrutar, para já, 15 pessoas que irão assegurar o funcionamento do restaurante, que numa fase inicial abrirá apenas ao almoço ou ao jantar para, ao fim de três meses, passar a funcionar com horário completo.

Passo seguinte: a formação

O passo seguinte será a formação, primeiro dada pela Crescer e mais ligada a competências do tipo como lidar com o cliente, com os chefes ou com os colegas, e depois pela Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, esta já centrada no trabalho prático de sala e de cozinha. No projecto está também, desde o primeiro momento, o chef Nuno Bergonse. Serão dele as receitas e todo o conceito do restaurante e será também ele a acompanhar a fase de arranque.

Depois, haverá um chef executivo na cozinha e um chefe de sala – a restante equipa (seis funcionários ao almoço e seis ao jantar) será integralmente assegurada por pessoas que viviam na rua. Para integrar o projecto é preciso, contudo, explica Américo, que passem a estar pelo menos numa situação de “sem-abrigo com tecto”, ou seja, dormindo num albergue ou noutra instituição.

O objectivo não será criar um emprego permanente no É Um Restaurante. A passagem por aqui terá uma duração de seis meses – sempre acompanhados, como todo o processo, desde o momento da formação – por uma psicóloga. Após essa fase, deverá haver um novo estágio, num restaurante da cidade, e depois, idealmente, a integração no mercado de trabalho.

“O que queremos é inverter a ideia de que estas pessoas nunca são competentes ou não têm capacidade para ser autónomas”, sublinha Américo. “Queremos quebrar o ciclo do assistencialismo, e que elas tenham autonomia e uma voz própria sobre o seu futuro.”

O que acontece muitas vezes a alguém que vive na rua, ou mesmo numa instituição, é que “tem um vazio no currículo que deixa a entidade empregadora com muitas dúvidas”. Isso torna muito mais difícil conseguir um emprego. A passagem pelo É Um Restaurante dá-lhes uma possibilidade de “mostrar que são capazes e que podem estar integradas”.

Mas é preciso avançar com algumas cautelas. “Não os vamos pôr logo a fazer um trabalho de oito horas por dia. São pessoas que não trabalham há muito tempo e muitas vezes este processo é uma aprendizagem.” Viver em situação de sem-abrigo, resume o director da Crescer, “é, no fundo, viver em guerra”. Por isso, “numa fase inicial, há o hábito de as pessoas se relacionarem com os outros sempre de forma desigual. Habituaram-se a conviver de forma submissa ou revoltada e nunca se colocam numa posição de igual para igual.”

Um lugar “de conforto e de partilha”

Facilmente se geram mal-entendidos entre o trabalhador e a entidade empregadora, daí a importância da presença de uma psicóloga que possa ajudar a superar essas dificuldades. “Muitas vezes, a última experiência de vida destas pessoas é a de não poder confiar em ninguém. É isso que queremos quebrar, temos que dizer-lhes que devem reclamar, exigir, e colocar-se numa postura de cidadãos com direitos.”

No final, o que se deseja é que os clientes encarem o espaço como um restaurante normal, de onde se espera que saiam satisfeitos com o serviço e a comida – que, segundo Nuno Bergonse, será “de conforto e de partilha”, com alguma sofisticação (a apontar para um preço médio de 25€ ao jantar).

Américo espera que quem frequentar o É Um Restaurante não o faça para num espírito de caridade – “não queremos que venham para ajudar as pessoas, mas sim para ajudar o projecto e que este sirva de alavanca para as integrar na comunidade”.

Para já, enquanto decorrem as entrevistas de selecção, a Crescer procura apoios, desde marcas que possam ajudar a equipar a cozinha e a sala, a entidades que colaborem de diferentes formas, como já acontece com a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, que oferece a formação. O espaço na Rua de São José, propriedade da Câmara, foi cedido à Crescer que, por seu lado, se comprometeu a tornar o projecto autónomo num prazo de três anos.