Análise

Sete dúvidas e uma certeza que tornam estas eleições interessantes

O número de recenseados aumentou em 1,1 milhões. Isto significa que o risco de a abstenção aumentar é maior.

  1. Uma das questões centrais destas eleições europeias é a evolução do bloco de votantes da esquerda. Como notava esta semana Pedro Magalhães, desde 2009 que a votação nos partidos de direita (PSD e CDS) em eleições europeias está em queda livre, o que significa que a esquerda tem potencial para crescer. Até onde? Há cinco anos, os três partidos da “geringonça” somaram 49% dos votos. E o que isso significará como ponto de partida para as eleições legislativas?
  2. Só por três vezes, o partido que governava o país conseguiu ganhar as eleições europeias, como esta semana São José Almeida escreveu no PÚBLICO. É, portanto, a excepção. Aconteceu com António Guterres, em 1999, Cavaco Silva, em 1989, e em 1987 (as primeiras eleições europeias em Portugal, em simultâneo com as legislativas). Tendo em conta que o PS governa o país, mas não foi o partido mais votado nas últimas legislativas (ganhou a coligação PàF, do PSD/CDS), o mais natural, de acordo com este histórico, é que ganhe sem surpresas as eleições europeias.
  3. Se o resultado mais baixo do PSD foi o obtido há cinco anos em coligação com o CDS (27%), isto significa que tudo o que seja ficar perto dos 25% é uma tragédia sem paralelo. Os críticos de Rui Rio já disseram no passado que este devia ir a votos em legislativas (em Outubro), mas a perspectiva de um desaire dia 26 está a abalar algumas certezas. Tal como há cinco anos, as europeias provocaram a derrocada da liderança de António José Seguro, estas eleições podem provocar a derrocada da liderança de Rio mais cedo do que se imaginava. Para esta equação, é bom não esquecer também o papel de Pedro Santana Lopes e do Aliança que vão literalmente roubar votos ao PSD. Mesmo que não eleja, o Aliança alcançará o objectivo de fazer mossa a Rio.
  4. Nas últimas eleições europeias, o PCP (416 mil) obteve quase o triplo de votos do que o BE (149 mil). Foi uma diferença expressiva que deixou animados os comunistas e assustados os bloquistas. A eleição deste ano tem, por isso, um sabor especial à esquerda do PS.
  5. É a primeira vez desde há vários anos que o CDS vai ser avaliado sozinho (tirando as autárquicas). Quer nas últimas legislativas (2015), quer nas últimas europeias (2014) concorreu em coligação com o PSD. A última vez que concorreu sozinho em europeias foi em 2009 e obteve 298 mil votos, tendo conseguido eleger nessa altura dois deputados. Nas eleições seguintes (em coligação com o PSD), só conseguiu um lugar. Será que Nuno Melo consegue reforçar o score do partido e voltar a níveis de Nuno Melo de 2009?
  6. Os pequenos partidos obtiveram 291 mil votos nas últimas europeias. Domingo à noite, um dos grandes vencedores pode ser mesmo o PAN, que se arrisca a triplicar a votação (teve 56 mil votos) e a eleger um eurodeputado na senda do que sucedeu nas últimas legislativas. Já o Basta, de André Ventura, é uma incógnita. Quase não aparece nas sondagens, mas será assim nas urnas?
  7. Nas últimas eleições europeias, as pessoas que não ficaram em casa e que se deslocaram a uma assembleia de voto para votar em branco ou nulo foram 244 mil, ou seja, mais do que aquelas que elegeram Marinho e Pinto, ou seja, na teoria poderiam ter eleito um outro mandato. E este domingo?
  8. Por último, uma certeza. Há cinco anos, as europeias registaram a abstenção mais alta, 66%. Nestas eleições, o número de recenseados aumentou em 1,1 milhão de pessoas (passou para 10,7 milhões de eleitores). Ora isto significa que o risco de a abstenção aumentar é seguramente maior.