Sociais-democratas temem derrota no domingo. PSD resiste a uma crise?

Um resultado de 25% pode ser a linha que separa o PSD de Rui Rio de um sobressalto, embora poucos acreditem que haja condições agora para uma disputa de liderança.

,Partido Social Democrata
Foto
PÚBLICO

Mesmo os mais críticos de Rui Rio não querem acreditar que o PSD venha a ter uma desvantagem de dez pontos face ao PS nas eleições do próximo domingo. Mas há quem, entre dirigentes sociais-democratas, admita um cenário catastrófico e deixe um aviso: “Se o resultado for abaixo dos 25%, Rio tem de tirar conclusões e pode haver disputa de liderança.”

Ainda há pouco tempo, os sociais-democratas mais críticos da liderança de Rui Rio encaravam com algum optimismo a disputa das eleições europeias, sobretudo depois de Paulo Rangel ter vindo dar ânimo ao partido, com um estilo de oposição ao Governo mais acutilante.

Agora, depois da crise dos professores e de sondagens negativas para o PSD, os sociais-democratas contactados pelo PÚBLICO esperam uma derrota no próximo domingo. Não uma derrota por uma distância de dez pontos do PS – como estima a sondagem da Universidade Católica Portuguesa, feita para o PÚBLICO e RTP –, mas de menor dimensão.

São poucos os que admitem que um mau resultado no domingo possa abrir uma crise grave no PSD – até porque, justificam, o desfecho do desafio de Luís Montenegro à liderança de Rui Rio, em Janeiro deste ano, comprometeu essa hipótese neste momento do pós-europeias. Nas palavras de outro opositor de Rui Rio, o partido, na altura, “conformou-se” com a ideia de que o actual líder terá de disputar as legislativas contra António Costa, apesar de ser “penoso”. 

Do lado dos apoiantes do líder do PSD a tendência é para desvalorizar a sondagem do PÚBLICO-RTP e de apontarem que há outras a surgir com uma diferença mais estreita entre o PSD e o PS. Questionado pelos jornalistas sobre se será um mau resultado o PSD manter seis eurodeputados, Rui Rio disse não ser o resultado que espera. Nas contas da direcção nacional, aos resultados das europeias de 2014 – em que o PSD concorreu coligado com o CDS – tem de ser descontada a quota dos centristas (o que equivaleria a cerca de 7%), o que coloca os sociais-democratas no patamar dos 20%. E é essa a base de comparação que Rio se prepara para usar, como o próprio já admitiu em conselho nacional. No outro prato da balança estão todos os resultados das europeias desde 1987 em que o partido concorreu sozinho: o PSD nunca desceu abaixo dos 31,7%.

Luís Montenegro, antigo líder da bancada parlamentar, é visto como uma das figuras que estão em condições de disputar a liderança com Rui Rio, sobretudo se o resultado das europeias for negativo para o PSD e isso fragilizar outro putativo candidato – Paulo Rangel. De falta de apoios de antigos líderes a candidatura não se pode queixar. Na campanha já estiveram Pedro Passos Coelho, Manuela Ferreira Leite e Luís Filipe Menezes. Francisco Pinto Balsemão é o convidado desta quinta-feira.

Mas há movimentações que estão a ser pouco compreendidas. Para o próximo dia 1 de Junho estava a ser marcado um almoço com elementos de várias antigas direcções da JSD, entre os quais está Hugo Soares (um dos rostos da oposição a Rio), mas também o ex-secretário-geral da organização Bruno Coimbra, que agora é secretário-geral adjunto do actual líder. A iniciativa aconteceria num momento que podia ser delicado, mas entretanto – e após contactos do PÚBLICO – a data foi adiada com o argumento de que há outros eventos no partido nesse dia que impediriam sociais-democratas de estarem presentes. Fonte da organização garantiu ao PÚBLICO que o almoço já estava a ser pensado há muito tempo, que há a preocupação de o articular com a presidência do PSD, que não tem qualquer significado político, que se trata apenas de um convívio entre amigos e que tem até um cariz familiar. Hugo Soares disse ao PÚBLICO que não irá comparecer.

Ainda antes da crise de liderança aberta por Luís Montenegro, o próprio admitiu, em Novembro de 2018, que uma mudança interna de estratégia e de líder após as europeias era “difícil”, por haver pouco tempo até às legislativas. Esse foi, aliás, um dos argumentos usados pelo líder do PSD para descartar qualquer pedido de demissão em caso de maus resultados no domingo. “Acha minimamente sensato, estamos no fim de Maio, com eleições em Outubro e o Verão de permeio? Era um irresponsável, se fizesse isso. Eu não ameaço com demissões por questões de interesse partidário, isso nunca faria”, disse Rui Rio, esta quarta-feira, no final de uma acção de campanha na praia de Mira. 

A questão da falta de tempo para uma mudança de líder no PSD num período pré-eleitoral já se colocou, mas não foi considerada determinante no passado: entre a demissão de Marcelo Rebelo de Sousa (final de Março de 1999), a eleição de Durão Barroso como seu sucessor e a realização de eleições europeias (13 de Junho) passaram dois meses e meio, um prazo menos dilatado do que aquele que medeia as eleições do próximo domingo e as legislativas de 6 de Outubro, apesar da pausa de férias de Agosto.

A mudança de liderança só pode concretizar-se com a realização de um congresso extraordinário, cenário que tem sido sempre afastado pela direcção de Rui Rio. Aliás, a ideia que se quis deixar no ar é que Rui Rio poderia até sobreviver a uma eventual derrota nas legislativas por protagonizar um projecto que iria para lá dos ciclos partidários de dois anos. Nos últimos tempos, a direcção de Rio tomou algumas medidas que são vistas como ferramentas que dão vantagem a quem está no poder. É o caso do reforço da obrigação das votações em conselho nacional serem feitas de braço no ar e não de forma secreta. 

Desde o episódio de Luís Montenegro – de que Rui Rio saiu vitorioso, ao fazer aprovar com confortável maioria uma moção de confiança no conselho nacional – que se instalou entre os críticos a ideia de que Rui Rio teria de ser sujeito ao teste das eleições legislativas. Só aí se poderia avaliar. Mas também há quem lembre que se o resultado de domingo for abaixo dos 25% – a linha traçada pelo resultado de Sá Carneiro nas legislativas de 1976, o pior de sempre do partido –, pode ser “o choque com a realidade”. Se assim for, será que o PSD resiste a uma crise?