PS explica-se à esquerda e depois pede explicações... e fica a falar sozinho

A política de alianças na Europa obrigou os socialistas a terem de explicar o que querem. Na volta do correio, Pedro Marques pediu clarificação à esquerda sobre saída do euro e teve a ajuda de Mário Centeno.

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Quando há três anos e meio António Costa foi negociar com PCP, BE e PEV, havia um ponto de partida: as posições sobre Europa ficavam na beira do prato negocial. Os quatro partidos não se entendiam sobre a forma de lidar com a política europeia e concordaram nos mínimos para garantir a possibilidade de um Governo do PS. Nas primeiras eleições europeias desde que há esta solução de Governo, as divergências directas e as picardias entre os partidos também demoraram a aparecer. Nesta segunda semana de campanha deixaram de se ignorar e viraram-se uns para os outros: afinal, o que defendem? Hoje, tal como há três anos e meio, continuam longe uns dos outros.

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Quando há três anos e meio António Costa foi negociar com PCP, BE e PEV, havia um ponto de partida: as posições sobre Europa ficavam na beira do prato negocial. Os quatro partidos não se entendiam sobre a forma de lidar com a política europeia e concordaram nos mínimos para garantir a possibilidade de um Governo do PS. Nas primeiras eleições europeias desde que há esta solução de Governo, as divergências directas e as picardias entre os partidos também demoraram a aparecer. Nesta segunda semana de campanha deixaram de se ignorar e viraram-se uns para os outros: afinal, o que defendem? Hoje, tal como há três anos e meio, continuam longe uns dos outros.

Primeiro o PS. Pedro Nuno Santos - ou “a coqueluche do PS” como lhe chamou Rui Rio - foi a Aveiro defender que só políticas viradas para os trabalhadores, respeitando a matriz ideológica da social-democracia, podem ajudar a combater os populismos. O ministro, da ala mais à esquerda do PS, não se manifestou sobre alianças europeias, mas sobre formas de governar, o que não foi suficientemente claro para não ser usado pelos adversários. Fê-lo no dia a seguir a um encontro de António Costa com Emmanuel Macron, depois do qual o primeiro-ministro considerou necessária uma “uma aliança progressista contra a internacional da extrema-direita.

O suficiente para que a candidata bloquista, Marisa Matias, pegasse nas palavras de Pedro Nuno Santos para questionar o PS sobre essa “ambição de construir uma aliança bizarra com a direita liberal”. E David Justino, dirigente do PSD, viu aí um “desalinhamento” com Costa.

A resposta sairia de Pedro Marques que, questionado pelos jornalistas sobre o posicionamento do PS, se apressou a dizer que “não há contradições” entre o que defende Pedro Nuno e o que fez e disse António Costa. Uma coisa é a política que deve ser seguida para evitar o crescimento dos extremismos, outra coisa alianças entre democratas numa espécie de travão a populismos: “Temos de conseguir construir uma coligação de europeístas contra a extrema-direita, contra nacionalismos, contra xenofobia”, defendeu. Uma aliança que vai de Macron a Tsipras.

Pedro Marques, que até este dia nunca se tinha virado para a esquerda, viu via aberta para ripostar e fê-lo logo de seguida. O socialista, que esta quarta-feira começou o dia na sua terra natal, o Montijo, na margem Sul do Tejo, distrito de Setúbal, onde PS e PCP têm uma grande animosidade, sobretudo depois das últimas autárquicas em que os comunistas perderam câmaras para o PS, sentiu as costas quentes. “Defendem mesmo a saída do euro? Sabem o que isso poderia representar para Portugal?”, questionou num almoço-comício no Barreiro.

Uma pergunta que, pelo menos até ontem ao final da tarde, não tinha recebido qualquer resposta. A candidata do BE já não fez declarações durante a tarde e, do lado do PCP, João Ferreira chutou para canto. Questionado pelo PÚBLICO durante uma arruada no centro da Amora, na margem sul, João Ferreira começou por dizer que tem falado sobre isso na campanha, sim - mas só o fez perante os jornalistas uma única vez e quando confrontado sobre o assunto. “Talvez Pedro Marques estivesse distraído no debate que teve comigo, mas expliquei-lhe detalhadamente qual era a nossa posição a esse respeito.” E acrescentou: “Creio que vir numa altura destas com essa questão é uma tentativa clara de virar o bico ao prego, de esconder os compromissos que o PS teve - e mantém - com medidas que implicam um retrocesso dos direitos sociais e não progresso.”

O rosto dessas medidas acabou por estar ontem com Pedro Marques. Na verdade, o rosto das medidas e o rosto do Governo em Bruxelas. O ministro das Finanças, Mário Centeno foi o convidado de honra do jantar-comício em Setúbal.

Aos socialistas, Centeno foi defender o projecto europeu e o euro - tem “de estar no centro da nossa mensagem”. “Hoje precisamos de mais Europa, não precisamos de populismo, nem de xenofobia, nem de extremismos. Os populismos que assomam são uma resposta errada a problemas que as nossas populações vivem. Está nas nossas mãos preencher o espaço político com propostas que respondam aos cidadãos”, disse. Medidas essas que, defendeu, apesar do “coro de penitentes” que não acreditavam que era possível uma política diferente, se provou darem resultado.

O Governo tem estado em peso nesta recta final da campanha. Centeno foi o sétimo ministro a subir aos palcos dos comícios socialistas. Apesar de Pedro Marques dizer que não quer nacionalizar a campanha, conta com o apoio de ministros dirigentes do PS e também com independentes.