Líder de rede de pedofilia confessa crimes de abusos sexuais, mas não pagamentos

Julgamento começou esta segunda-feira à porta fechada. Arguido responde por 583 crimes de abusos sexuais sobre oito crianças e mais de 70 mil crimes de pornografia infantil.

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O julgamento decorre no Campus da Justiça em Lisboa Nuno Ferreira Santos

O homem de 27 anos que liderava uma rede internacional de pedofilia especializada em abusos a bebés confessou esta segunda-feira em tribunal os seus crimes. Mas não os pagamentos que o Ministério Público diz que ele terá recebido por via dos vídeos de cariz sexual que fazia com as suas vítimas.

O arguido começou esta segunda-feira a ser julgado no Campus da Justiça, em Lisboa, juntamente com os seus pais, com quem morava em Águeda, numa casa onde funcionava uma sucateira, e ainda as mães de duas das crianças vítimas de abusos. As progenitoras são suspeitas de terem deixado os filhos ao cuidado deste homem, apesar de saberem que ele abusava das crianças.

O sucateiro já podia estar preso há dois anos, altura em que foi julgado por pornografia infantil. Mas os juízes de Aveiro que o condenaram em 2017 por tráfico de imagens deste tipo resolveram suspender-lhe a pena, por entenderem que ir para a cadeia lhe podia estragar a vida que tinha à frente. Acabou por ficar em liberdade, sujeito a tratamento psicológico, mas também a continuar a abusar de vários familiares seus, sobrinhos e primos, mas também de outras crianças.

A polícia é tão otária. Para eles sou mais um pedófilo que acedeu a pornografia infantil”, gabava-se aos seus cúmplices. Montou, a partir da sucata de Águeda, uma rede internacional de pedofilia a que chamou Baby Heart, que funcionava na darknet e que servia para a troca de imagens e vídeos de bebés, mas também de conselhos sobre os cuidados a ter para não se ser apanhado.

“Criou um sistema de prestígio, atribuindo uma estrela vazia aos membros novos, a qual, à medida que tais membros partilhavam conteúdos de abusos sexuais de crianças, ia sendo preenchida. Quando a mesma se encontrasse totalmente preenchida, o membro recebia a designação de membro especial, sendo que para tanto teria que publicar e partilhar boa pornografia de menores”, descreve a acusação do Ministério Público, que lhe imputa 583 crimes de abuso sexual perpetrados sobre oito crianças e mais de 70 mil de pornografia infantil entre 2013 e Junho de 2017, altura em que foi detido.

Esta segunda-feira o arguido falou em tribunal durante cerca de dez minutos, num julgamento que está a decorrer à porta fechada. De forma emocionada, confessou os abusos – muito embora tenha declarado não serem tantos quantos aqueles que lhe imputa o Ministério Público. E assegurou nunca ter ganho dinheiro com esta actividade. Depois desta curta declaração remeteu-se ao silêncio.

Esta rede internacional foi descoberta pelas autoridades australianas, que avisaram as suas congéneres portuguesas. Depois de ter descoberto o sucateiro, a Polícia Judiciária encontrou outros dois membros portugueses da mesma rede: um informático de Belas que abusava de uma filha bebé e de um enteado, e um radiologista da Parede, que chegou a ser julgado em tribunal há perto de uma década pelo mesmo tipo de crimes, mas que conseguiu, na altura, escapar à condenação graças a um formalismo legal.