Opinião

Os jovens, a abstenção e a Europa

Da mesma forma que a Europa está hoje, invariavelmente, presente no quotidiano dos jovens, a sua participação na construção do projeto europeu é absolutamente irrenunciável. A Europa precisa dos jovens.

Trezentos e oitenta milhões de eleitores estão convocados para, entre 23 e 26 de maio, escolherem os seus representantes no Parlamento Europeu.

Estas eleições decorrem num contexto particularmente desafiante e de incerteza relativamente ao futuro do projeto europeu. Por um lado, nunca como agora foi tão evidente a necessidade da escala europeia para abordar problemas, ameaças e desafios cada vez mais transnacionais e globais. Por outro, o ressurgimento de manifestações de nacionalismo, xenofobia e egoísmos vários recordam-nos alguns dos medos mais sombrios da História da Europa que, em grande medida, motivaram o próprio impulso criador da União Europeia.

A definição da composição do Parlamento Europeu é, assim, decisiva para a construção do nosso futuro coletivo. No entanto, as taxas de participação nas eleições para o Parlamento Europeu têm sido historicamente baixas e continuamente decrescentes à medida que, paradoxalmente, os seus poderes têm vindo a ser reforçados pelas sucessivas revisões dos tratados. Com efeito, a única instituição europeia eleita diretamente pelos cidadãos europeus teve, em 2014, uma taxa de abstenção de 57,5%. Em Portugal essa taxa atingiu os 66,3%, pouco mais de 33% dos portugueses votaram nas eleições europeias de 2014.

Se analisarmos o comportamento eleitoral dos jovens europeus, os números são ainda mais alarmantes. Apenas 28% dos jovens entre os 18 e os 24 anos votaram nas últimas eleições europeias. Quanto aos jovens portugueses, apenas 19% se dirigiu às urnas e o último Eurobarómetro publicado indica que só 3% dos jovens portugueses admite estar absolutamente seguro da sua participação no próximo ato eleitoral.

A abstenção eleitoral e, em concreto, a abstenção eleitoral dos jovens, não encontra, certamente, causas ou explicações simples e uniformes. A complexidade e multiplicidade de fatores que justificam o fenómeno não deve, no entanto, servir de pretexto para o imobilismo e a inação. Foi, por isso, que a Agência Nacional Erasmus+ Juventude em Ação decidiu avançar com uma campanha de mobilização da participação eleitoral dirigida especificamente aos jovens. Mobilizando uma ampla rede de parceiros – Eurodesk, autarquias, associações juvenis –, serão realizados mais de 180 eventos de debate e reflexão e envolvidas dezenas de milhar de jovens nos 18 distritos do país e nas duas regiões autónomas da Madeira e dos Açores. Em paralelo, a produção de conteúdos e a sua ativação pelas redes sociais procurará evidenciar a presença concreta da Europa em várias dimensões da vida e do quotidiano dos jovens.

Da mesma forma que a Europa está hoje, invariavelmente, presente no quotidiano dos jovens, a sua participação na construção do projeto europeu é absolutamente irrenunciável. A Europa precisa dos jovens. Da sua participação, da sua liberdade e cidadania, da sua abertura à diferença e aos outros, do seu espírito europeu humanista e universalista e, sobretudo, dos seus sonhos. E só mesmo a capacidade de sonho permite que a Europa ouse ser Europa!

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico