Artificial Photography/Unsplash
Foto
Artificial Photography/Unsplash

Couro “vegan” a partir de serradura, cortiça e borras de café chega ao mercado em 2020

Muito em breve, comprar uma peça de vestuário em couro “vegan” feito à base de borras de café, farelo de madeira e restos da produção de rolhas de cortiça vai deixar de ser uma ficção. Empresa de Vila Nova de Cerveira espera colocar produto no mercado em Julho de 2020.

Jovens investigadores e engenheiros estão a fazer ensaios numa fábrica em Campos, Vila Nova de Cerveira, no distrito de Viana do Castelo, para comercializar, já em Julho de 2020, um tecido especial de couro “vegan” criado a partir de cortiça, serradura e borras de café.

A equipa de especialistas, com uma dúzia de engenheiros químicos e biológicos oriundos das áreas da borracha, papel, cortiça, tubos ou farmacêutica, está a criar os protótipos de couro “vegan” para que no próximo Verão possa comercializar um produto mais ecológico.

O objectivo é reaproveitar desperdícios de indústrias da madeira, cortiça e cafeeira e fazer uma espécie de casamento com as tecnologias de ponta e inovação para que, no futuro, o sector da moda e do vestuário, mas também o sector automóvel, com os estofos dos bancos, o mobiliário, com mesas e sofás revestidos a tecido de cortiça impermeável, ou o calçado e a arquitectura possam usufruir de soluções mais sustentáveis que ajudem a diminuir a pegada ecológica, explicou o director de operações da Tintex, Ricardo Silva.

Muito em breve, comprar uma peça de vestuário em couro “vegan” feito à base de borras de café, farelo de madeira e restos da produção de rolhas de cortiça vai deixar de ser uma ficção para ser uma realidade e comercializada a preços idênticos aos actuais do mercado com materiais mais poluentes ou que impliquem a morte de animais.

“Esta tecnologia não vai acrescer muito o custo se olharmos ao mesmo tipo de produto e ao mesmo tipo de material. Creio que no máximo vai acrescer uns 5%, mas isso vai depender também da marca, mercado, conceito”, observa o jovem Ricardo Silva, 27 anos, a segunda geração envolvida na administração da Tintex e que acumula actualmente o cargo de administrador da empresa com o pai Mário Silva.

Licenciado em Engenharia pela Universidade do Porto, Ricardo Silva revela que tem vários parceiros interessados em comprar o couro “vegan” e que, no decorrer da descoberta e dos ensaios, rapidamente perceberam que o produto não se poderia cingir apenas à moda, havendo muitos mais mercados interessados.

“Temos uma equipa muito forte cá dentro. Neste momento temos cinco pessoas alocadas exclusivamente à inovação e a descobrir coisas novas, entre cientistas, engenheiros, biomédicos”, descreve Ricardo Silva, orgulhoso por ter uma empresa com 132 trabalhadores, com uma média de idades de 34 anos, onde quase um terço é licenciado (32).

Além do investimento no capital humano, que anda na ordem dos 600 mil euros por ano, a unidade fabril localizada em Vila Nova de Cerveira fez, nos últimos quatro anos, um investimento de “cinco milhões de euros” em tecnologias industriais e laboratoriais.

“O departamento de inovação e sustentabilidade nasceu para certificar a empresa em vários standards, seja cooperativo, seja de produto, mas rapidamente a área da inovação com projectos estruturados começou a crescer e fez-se a separação, com a área da sustentabilidade, muito focada nas novas tecnologia e novos processos”, explicou.

A nova tecnologia para criar o “couro” não animal vai permitir criar um revestimento com propriedades específicas ao nível estético, táctil e de performance (impermeabilização), que pode ser utilizado como revestimento de sofás, cadeiras, chapéus, mesas, paredes, estofos dos carros, vestuários ou calçado. Os mercados mais entusiasmados com produtos vegan são os países nórdicos, nomeadamente Alemanha, mas também o mercado norte-americano.

Diminuir a pegada ecológica do sector têxtil e do vestuário, um dos cinco mais poluidores no planeta, está no ADN da Tintex, empresa criada em 1998 e que acabou de receber o German Design Award 2019. O prémio foi para o Picasso, projecto que usa processos de tingimento naturais através de extractos de cogumelos e plantas como tomilho, pimenta, hortelã-pimenta, bem como de resíduos de árvores exóticas da América do Sul.

Reduzir o uso de água em cerca de 90% na criação de uma sweatshirt que precisa, em média, de 4500 litros de água em confecção tradicional é outra batalha ganha pela Tintex, desvenda Ricardo Silva. Com o projecto de poupança de água, em parceria com uma ONG alemã e outra do Bangladesh, a Tintex baixou para 473 litros o necessário para produzir a mesma peça de roupa desde o processo de produção da fibra, fiação, tricotagem, tingimento e acabamento. Nesta empresa produzem-se ainda materiais sustentáveis, designadamente malhas inteligentes e mais sustentáveis, usando fibra de milho, soja e bambu.