Não havia sinais de um urso-pardo em Portugal desde 1843 Jim Urquhart/REUTERS

Como se descobriu um urso-pardo em Portugal, de que não havia rasto há 176 anos

É o “retorno de um grande predador”. Urso-pardo avistado no Parque Natural de Montesinho poderá ficar em território português durante os próximos três meses e depois regressar a Espanha, em direcção à Cordilheira Cantábrica, onde existe uma população à qual se acredita que pertence.

Depois de vários relatos sobre o possível aparecimento de um urso-pardo em Portugal, as autoridades portuguesas confirmaram nesta quarta-feira a presença em território português de um exemplar de urso-pardo, uma espécie considerada extinta no país desde 1843.

“A administração regional [de Castela e Leão] alertou para a presença deste urso às autoridades portuguesas, que finalmente confirmaram a sua descoberta”, revelou em comunicado, citado pela agência Lusa, o Serviço Territorial de Meio Ambiente de Zamora. “Dá-se a circunstância de ser a primeira vez, nos últimos dois séculos, em que a presença desta espécie no país vizinho é confirmada de maneira confiável”, asseguraram as autoridades regionais espanholas.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) português comprovou ao PÚBLICO a presença do animal em Portugal, pelo menos até ao início desta semana, junto ao Parque Natural de Montesinho, não conseguindo confirmar se este urso-pardo ainda se encontra nesta quinta-feira naquela zona.

“De facto, confirmamos o aparecimento e a presença de pelo menos um exemplar do urso-pardo em Portugal, no Parque Natural de Montesinho, numa área muito junto à fronteira [com Espanha], no concelho de Bragança e na zona da freguesia de Espinhosela”, explicou ao PÚBLICO o director do Departamento Norte do ICNF, Armando Loureiro.

Segundo o Serviço Territorial de Meio Ambiente de Zamora, citado pela Lusa, o animal, que foi também avistado na região de Sanabria, “pode pertencer” à subpopulação ocidental da Cantábria e deverá ser um adulto em dispersão. Em média, um urso-pardo adulto mede entre 1,4 e 2,8 metros de comprimento (incluindo a cauda) e entre 0,7 e 1,53 metros de altura até ao ombro e pode pesar mais de 200 quilogramas (no caso dos machos).

Em parceria com as autoridades espanholas, da região de Castela e Leão, o ICNF tem estado a monitorizar o animal através de “armadilhas fotográficas” (para fotografar o sítio onde o urso-pardo se encontra) e pessoas no terreno que verificam os indícios da sua presença.

“Nos últimos dias de Abril e nos primeiros de Maio, até ao início desta semana, temos acompanhado vários indícios de presença: pegadas, dejectos e pêlo”, acrescenta Armando Loureiro. Até então, o ICNF afirma não ter tido qualquer confirmação da presença do urso-pardo em território nacional.

“Eles não conhecem fronteiras”

Este exemplar pertence a um grupo de “indivíduos dispersantes, errantes de uma população que é bastante densa da Cordilheira Cantábrica, [movimentando-se bastante]”, adianta o director do ICNF. “Eles não conhecem fronteiras e portanto estamos nessa franja de expansão”, acrescenta.

Os machos jovens possuem uma filopatria, ou seja, uma tendência para se dispersarem, enquanto “as fêmeas tendem a ficar no local onde nascem”, explica Armando Loureiro. “Como eles conseguem percorrer grandes distâncias e há bastantes [exemplares] no Norte da Península Ibérica neste momento é natural que eles façam este tipo de incursões”, acrescenta o especialista, que refere ainda ter tido acesso a “informações correctas” divulgadas pelas autoridades espanholas – com registos fotográficos – da presença destes animais mesmo junto à fronteira.

O “retorno de um grande predador"

A presença do animal em território português é, garante Armando Loureiro, um “muito bom” sinal, tendo em conta que o último urso-pardo que viveu em Portugal foi morto em 1843 no Gerês, segundo o livro Urso Pardo em Portugal – Crónica de Uma extinção, de Paulo Caetano e Miguel Brandão Pimenta, publicado em 2017.

“É um retorno de um grande predador. Em Portugal [a espécie] está extinta desde o século XIX”, afirma o representante do ICNF. Porém, Armando Loureiro sublinha que o aparecimento deste urso-pardo não significa que a espécie já não esteja extinta.

“Uma espécie extinta é uma espécie sem viabilidade, sem população. Durante o século XX, por muitas razões, quase desapareceu da Península Ibérica e manteve-se na Cordilheira Cantábrica, aqui nos nossos vizinhos espanhóis. E, nos últimos anos, tem subido a população. Portanto, na Cordilheira Cantábrica há mais ou menos, neste momento, cerca de 300 ursos”, explica o especialista.

Agora, existem várias possibilidades, como diz Armando Loureiro: “Este exemplar pode ficar cá durante um ou dois meses (naquela zona ou próxima); pode fazer 70 ou 50 quilómetros numa noite ou num dia; pode amanhã regressar para norte e fazer um movimento de regresso em direcção à Cordilheira Cantábrica e nos próximos um ano ou dois não voltarmos a ter cá nada. Pode acontecer tudo isto.”

O especialista acredita, contudo, que “não é provável” que se avistem mais ursos-pardos em Portugal nos próximos meses. “Há-de ser um primeiro episódio de episódios mais ou menos frequentes que vão ser interrompidos e não continuados”, esclarece Armando Loureiro.

A médio ou longo prazo, o director do ICNF espera que este aparecimento possa “significar uma maior permanência e porventura uma fixação de uma população [em território português]”. Porém, sublinha que esta é uma questão de anos e não do “imediato”.

Para haver uma fixação da espécie em Portugal era necessário que a este exemplar se juntassem outros indivíduos que por cá ficassem. “Uma população não são dois indivíduos nem três. O mais certo é portanto este indivíduo ficar aqui um dia ou dois a três meses – não mais do que isto – e depois pode regressar, a qualquer momento, para norte até à sua população de origem ou fixar-se fora do território português na Sanabria”, diz Armando Loureiro.

Quanto às repercussões da presença deste mamífero em Portugal, o especialista do ICNF esclarece que o máximo que pode acontecer é o urso-pardo “comer alguma colmeia com mel” (algo que, aliás, o ICNF já se encontra a reunir esforços para prevenir). Tal como aconteceu, nos últimos dias de Abril, num apiário na cidade de La Tejera (Zamora), segundo informaram as autoridades ambientais regionais espanholas.

A esperança é que, a longo prazo, estes animais se possam fixar em Portugal. “Espero que se fique pela presença de um grande carnívoro em Portugal que possa daqui a uns anos ser, como nos picos da Europa, um objecto de atracção para turismo da natureza”, conclui.