Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

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Os trabalhadores e a sua luta são o motor para a transformação da humanidade

Estagiar sem receber? Não é vida. Empobrecer ao mesmo tempo que se trabalha? Não é vida. Criar riqueza e ver a sua distribuição em dividendos para o grande capital? Não é vida.

Quando falamos de progresso e emancipação social, nunca nos poderemos esquecer do papel que os trabalhadores de todo o mundo desempenham na transformação concreta da realidade através do trabalho, mas sobretudo da luta. Celebramos mais um 1.º de Maio com a sensação de que tudo está por fazer. Frente a avanços e recuos, somos forçados a acreditar que este tempo em que vivemos não marca o fim da história, mas sim o continuar da luta pela persecução de um futuro melhor onde os trabalhadores têm o protagonismo.

Sempre assim foi. Desde a Revolução de 1917 que não mais pôde ser ignorado o papel das massas trabalhadoras organizadas e a sua força para nivelar a balança entre exploradores e explorados. Quando tivermos a tentação de considerar que os progressos atingidos e os níveis de desenvolvimento alcançados são mais do que aquilo que poderíamos pedir, paremos para pensar. É certo que foi percorrido um longo caminho desde o início do século XX até aos nossos dias e que a vida se transformou nas mais variadas formas, seja de trabalho, de organização ou de luta. Os sectores não são os mesmos, nasceram mais e mais complexas áreas de trabalho e de formação e o sector operário modificou-se naquilo que se caracteriza como sendo tarefas suas.

Contudo, um operário é um operário. É aquele que vende a sua força de trabalho, na falta dos meios de produção, mediante uma justa remuneração, e isso não mudou nem irá mudar por mais que se modernizem os tempos. Se antes apenas vendiam a força de braços, hoje vendem os braços e a mente, mas sobretudo o tempo. É por isto que é impossível falar no fim do operariado, uma vez que aquilo que de mais valioso têm para vender é o tempo, e esse não altera consoante a década e o desenvolvimento tecnológico. Almeida Garrett perguntava “aos economistas, políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”.

Tal pergunta ecoa e atravessa épocas sendo poucos os que têm a coragem de responder. A discussão sobre o fim do operariado serve única e exclusivamente a quem quer advogar o fim dos direitos dos trabalhadores. E não nos enganemos: são muitos porque, afinal, é por meio deles que se produz um rico.

Ao longo da história, os trabalhadores travaram as batalhas mais produtivas da humanidade no que concerne ao alcance de direitos e de justiça laboral, social, económica e cultural. Desde o direito à greve que está na calha de ser revisto numa tentativa imoral de amputar os trabalhadores na sua capacidade de luta, à livre organização sindical. Não precisamos de nos apoiar no movimento mundial de trabalhadores para atestar a veracidade destas palavras, basta olhar para as transformações operadas por esta classe desde o fim do século XX até aos dias de hoje em Portugal. Com o fim da ditadura fascista, após anos de resistência clandestina e organizada, a luta das massas operárias conquistou o direito à livre organização sindical, ao voto, ao direito à greve, mas também o salário mínimo, o subsídio de férias e férias pagas, o 13.º mês, a baixa médica e a subida de salários. Quando exclamamos que o que acabei de elencar são conquistas de Abril, podemos igualmente afirmar que são as conquistas dos trabalhadores de Abril que em Maio se soltaram das amarradas do trabalho forçado e esforçado e se lançaram no mais bonito propósito social: a igualdade.

Hoje são novas as formas de exploração e de amputação de direitos: a eternização da precariedade e dos baixos salários, a perpetuação da instabilidade e dos contratos a termo, bem como dos recibos verdes que a ninguém beneficiam além dos patrões. Este não é um discurso do passado, antes virado para o futuro e para as novas conquistas que não podem deixar de ser alcançadas. A luta organizada dos trabalhadores constitui, hoje, em Portugal, o grande motor de desenvolvimento do país a todos os níveis e impreterivelmente das condições de vida do povo em geral. Neste 1.º de Maio não faltam razões para sair à rua e reclamar, mais uma vez, por aquilo que nos pertence e a que temos direito.

Estagiar sem receber? Não é vida. Empobrecer ao mesmo tempo que se trabalha? Não é vida. Criar riqueza e ver a sua distribuição em dividendos para o grande capital? Não é vida.

Viva o 1.º de Maio e a luta dos trabalhadores.